
Faço o caminho porquê?
Encontrar o verdadeiro motivo do Caminho é também uma das razões que me leva a percorrê-lo. Não há nenhuma doença por curar, nem promessa por cumprir, julgo eu! Não há um laço emotivo que me ligue particularmente a Santiago. Não existe nenhuma dúvida mais urgente por resolver. Apenas e tão somente o gozo da caminhada, a vontade de liberdade, a urgência da transpiração. E tudo isto eu consigo saber à superfície. Aparentemente sou uma pessoa razoável, equilibrada, sem qualquer tipo de carência espirutual... Tenho saúde e uma série de outras qualidades que são tidas como fundamentais para que a vida nos corra bem!
Mas há um lado obscuro nesta minha decisão que se tem vindo a impôr a cada instante. É como se, ao fazer-me peregrina, eu estivesse a seguir um propósito bem mais urgente do que uma simples aventura para variar as rotinas. E isso conduz-me. Por enquanto pela berma de uma estrada perfeita, sem lugar para grandes atropelos e agitações. Julgo que fui eu que criei esse espaço acolhedor, e enquanto a vida acontece no meio dessa estrada, eu vou caminhando ao lado, olhando em frente, buscando com os olhos cegos de horizonte, o justo sentido das coisas. E agora é como se tivesse perdido o controlo nessa conquista. E é como se os meus pés começacem agora a caminhar em obediência ao chão por baixo deles. Não sei o que comanda este desígnio, mas sei que se trata do lado obscuro do meu caminho.
E agora que não posso voltar atrás, não só porque de facto não o quero fazer, mas também e, sobretudo, porque sinto que acabo de entrar numa estrada que se conduz a si própria e da qual só é possível sair quando já não houver chão para caminhar... E aqui é que reside toda a graça da peregrinação. É que ela antecede o peregrino, em hierarquia, em existência e em vontade.
A estrada chama, o peregrino obedece! A razão talvez venha depois!
