O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

sábado, 28 de abril de 2007

"Yo no puedo más" (Giulia, Ribadiso de Baixo, 6 de abril)


A determinada altura gritei esta frase. Com a Catedral à frente dos olhos cheios de lágrimas, o ânimo esgotado venceu-me. Consegui geri-lo sem vacilações até ao Monte do Gozo, mantendo-me forte e animada, apesar das oscilações que comecei a sentir a partir do momento em que o Caminho começou a cheirar a Galiza.
Do outro lado do telefone, Giulia substituia-me nessa batalha ingrata, que é a de ir ao encontro de forças quando já não as há em reserva. E dizia-me que o albergue não tinha nada que saber, que era só seguir as setas, que da última vez que me vira estávamos perto, muito perto...

E não se cansava de me gritar que eu não podia ficar ali, no meio da noite, às portas de Santiago, que não eram os últimos cinco quilómetros que me íam atrasar no meu propósito de abraçar o Santo. Que eu tivesse calma, que estava perto... Era como se ela me sentisse ali a duzentos metros que estávamos uma da outra, como se pudesse testemunhar o meu nariz a roçar as portas do albergue, os meus olhos cegos do esforço... o coração frustrado pela iminência cruel do regresso a casa.

A Giulia ensinou-me esta lição: que é importante guardar em secreta segurança alguma da força que nos motiva. Ela fazi-o sempre. Era-lhe natural e estava-lhe essa determinação presente no olhar azul forte, imenso...

A Giulia entra no Caminho bem antes de nos encontrarmos perto de Mansilla de las Mulas. Vinha de Itália encontrar-se com a amiga: a Perla. E a outra italiana sempre falava dela, sobretudo quando começou a precipitar-se o dia da sua chegada. Contratempos atmosféricos arrastaram-nos os passos e por isso não foi possível ir buscá-la a León, como inicialmente estava combinado. Tínhamos um dia de atraso. E então a pequena "grande" Giulia inicia o seu Caminho ao revés. De León a Mansilla, de Mansilla a Reliegos. Aí, o Kiko, o Juan e eu pudemos testemunhar a emoção do reencontro das duas amigas. Giulia estende-nos a mão para nos cumprimentar, mas logo logo cede ao forte abraço que temos vindo a prepara-lhe desde há dias. "Bem-vinda sejas, peregrina!". Creio que nenhum de nós fica indiferente àquele momento de alegria elevada ao mais alto grau!

Passados alguns dias, já com Pierre de novo, todos tivemos a oportunidade de recordar os respectivos dias inaugurais de caminhada, revendo nos passos ainda pouco castigados da Giulia, o ritual de iniciação do corpo. Doía-lhe fosse o que fosse (na maioria das vezes era o "ginocchio"), mas o Caminho cumpria-se... num ritmo imposto pelas suas necessidades óbvias e a que todos estávamos dispostos a respeitar pelas razões evidentes da amizade. Por brincadeira, imitávamos-lhe o coxear, dizendo que era por solidariedade... e ela, cheia da sua graça tão particular, sorria em silêncio da nossa patetice , não descartando aquelas forças do espírito que só cada qual sabe onde as tem quando parecem que já se foram. E ela, bem se pode dizer que as tinha de reserva. E que mesmo assim lhe sobravam para depois poder partilhar com quem não tivesse forma de saber onde estavam as suas.

Ela foi o último membro a integrar o núcleo rijo de peregrinos que eu tive a honra de conhecer. E no meu último momento em Santiago, quando já não tinha mais de quem me despedir, porque todos os outros nessa altura já tinham dispersado rumando por novos caminhos, tinha-a comigo, marchando ao meu lado por aquelas ruas cheias da nossa saudade. Quase em silêncio nos entendíamos! Fosse pelo olhar ou pela incontestável identificação das almas, ou porque o momento exigia essa contenção.

No meu silêncio da altura, e no de agora também, não me esqueço do tamanho da sua força. E faço por manter sempre bem viva, à flor da pele, a sensação que foi rencontrar o rumo do Caminho, no dia do Monte do Gozo. Pois só assim posso dar-lhe justa homenagem, a esta flor da Toscana: mostrando ao mundo e à vida que vou saber aplicar aquilo que ela trouxe ao Caminho para me ensinar: não por imitação, mas por pura inspiração.

sábado, 21 de abril de 2007

Somos pobres peregrinos! (Pierre, Fonte do Vinho, Irache, 11 de março)


E aqui todos os Caminhos se tornam um só: em Puente de la Reina, dia 9 de Março. Curioso! Foi precisamente aqui que encontrei o Pierre, com o seu incessante sorriso, denunciando, desde logo, toda a sua arte de contagiar o universo à sua volta com energias positivas, que - não duvido - vêm directamente do interior do seu coração.
Quase que sou a sua hospitaleira nesse dia. Pois o homem que aí estava a receber os peregrinos - creio que seria porque lhe faltavam alguns dentes - disse qualquer coisa que não se percebeu. E o Pierre dizia que sim, como que afirmando que o entendia. E depois, vendo o homem abandonar a recepção, pergunta-me: "Que é que ele disse?" Tão pouco importa... Pois assim começou o nosso primeiro diálogo; e entre a partilha da experiência que tinha sido para nós fazer o Caminho até ali - dando especial ênfase aos detalhes que ocorreram na travessia dos Pirinéus - fomos sentindo a diminuta importância das advertências do hospitaleiro, se comparadas com a grande afinidade que sentíamos no imediato daquele momento singular. E eu seria capaz de reproduzir cada palavra daquele instante, não fosse o meu medo de tolher o interesse depositado na leitura dos meus relatos. Porque eram simples as palavras... Significativo, era o encontro em si! Esse sim! Fazia já adivinhar que, desde ali, os nossos passos se sincronizariam para se vigiarem mutuamente, até onde o Caminho quisesse.

Pierre é talvez o peregrino que menos solicita as emoções sinceras do seu coração! Mas isso não lhe atribui nenhum qualitativo da orla do insensível. Apenas lhe dá a justiça de poder assumir-se como o mais cuidadoso nesse campo! O seu camuflado preferido (genuíno também) é o "chiste", que conta incansavelmente como se se tratasse de histórias verdadeiras que protagonizou. E dos factos verídicos, até dos menos felizes, consegue reconhecer o seu lado descontraído, fazendo deles verdadeiras anedotas, sem nunca descartar a sua vertente mais sisuda. De certa forma, lembra-me Roberto Benigni e a "Vida é Bela". A sua postura optimista perante a vida, por ser sincera, consegue ultrapassar o âmbito individual e exercer nos outros forças extraordinariamente relaxantes!

São dele as mais famosas frases do Caminho. E de certa forma é ele também o inventor dos rituais mais afirmados. Mesmo durante o seu interregno, repetíamos, em sua e em nossa homenagem, todas aquelas coisas de que ele bem pode reclamar a autoria. (mais tarde falarei de como se despediu de nós em Burgos, fazendo-nos acreditar que seria a última vez que o víamos, para depois nos ir encontrar em Léon)

Presayuno, desayuno, resayuno:


É ideia original sua o desdobramento do "desayuno" em três momentos distintos, que todos aprendemos a respeitar religiosamente. Em breve, depois de Puente de la Reina (talvez tenha começado Grañon) passaríamos a ter três refeições matinais: o "presayuno", o "desayuno" e, muito importante, o "resayuno".

Hablar con los arboles:

Uma prática a que todos frequentemente recorríamos, uma vez que a distância entre os "pueblos" muitas vezes não nos permitia adiar a satisfação daquelas necessidades biológicas que afectam qualquer ser-humano; sobretudo o ser-humano peregrino, que necessita de ingerir muita água, por força do muito caminhar! E à falta dela, havia outras substâncias. De cor e sabor diversos, é claro! Mas como o espírito peregrino não é nem pode ser muito exigente, tínhamos de aceitar, sem levantar reclamação, tudo aquilo que o Caminho tinha para nos oferecer. Bem-aventurado seja o homem que inventou a "Fuente del Vino", que não havendo mais nada era isso que se bebia
Isto para dizer que, à custa de tanto bebermos (coisa que só fazíamos por necessidade do corpo que se queria bem hidratado e não por capricho), recorrentemente nos isolávamos no meio dos arvoredos, para podermos fazer aquilo que normalmente só fazemos sozinhos e que, por culpa da Natureza, só podemos fazer por nós... E sempre sob o olhar atento das árvores!

Mas havia mais:

"mañana", o tempo que nunca chega! Fácil constatação em Espanha! Em Portugal teria sido mais evidente. Afirmava ele que sempre que um espanhol dizia "mañana" que se referia a uma dimensão do tempo que não existe. E assim, como se diz que "Em Roma, sê romano", Pierre assumia muitas vezes essa categoria especial do tempo: "Mañana no bebo vino".

"no funciona" - quando algo corria menos bem, ou pela sua falta de jeito a manusear objectos, ou porque aconteciam coisas que escapavam ao seu controlo, como uma tarde sem sol ou o sermos recebidos por um hospitaleiro mais ranhoso.

"Somos pobres peregrinos", afirmava quando nos tentavam vender alguma coisa por uma quantia exorbitante. Ou daquela vez - isto contou-nos ele, que ainda não o conhecíamos - que não havendo nada que comprar nem onde comer em Larrasoaña, se foi batendo de porta em porta, pedindo aqui um ovo, ali um pouco de azeite, argumentando aquela necessidade com esta frase! Na verdade, mentia. Porque nem ele era pobre porque nos tinha. Nem nós porque o tínhamos a ele!




terça-feira, 17 de abril de 2007

Obrigada Georgina... (Kiko, a caminho do Monte do Gozo, 7 de abril)


Valeu bem a pena, no dia 15 de Março, seguir os passos de Juan Luis e Pierre, obrigando as pernas a mais 7 Km depois de Santo Domingo de la Calzada. Grañon foi um dos momentos mágicos do Caminho: proporcionou-nos todos os encontros e reencontros, que seriam a base do nascimento do nosso clã. Aí recuperei a Perla: tinha-a deixado em Pamplona. E levei-lhe JuanLulu e Pierre... a ela e ao Kiko! E ela tinha para nós esta preciosidade rara, que, para mim, é uma das mais bem conseguidas obras da natureza humana.
Sabia já da existência de um outro quebequois, que estava um dia à nossa frente. Pierre fazia questão de me apresentar, em cada albergue por onde passávamos desde Puente de la Reina, o seu conterrâneo, ainda que só o conhecesse através dos livros de visitas dos peregrinos. Era como se já o conhecesse... como se juntos passassem horas em conversa naquele francês dificílimo de entender, rindo e partilhando confidências, como viriam a fazer mais tarde.

O Kiko encara o Caminho destemido, sempre com os imensos olhos verdes pousando no mais longínquo horizonte; suportando, para além do peso de uma mochila extremamente pesada, a companhia de uma tenda de Inverno e da sua guitarra de "batalha". A isto acresce a dimensão das dúvidas e inseguranças, tão naturais a qualquer ser-humano, mas mais pronunciadas em alguém que está a despedir-se da adolescência e que acaba de assumir o sério compromisso de crescer, mantendo viçosa a flor dos sonhos e bem alargados os horizontes do coração. E ele não só cumpriu exemplarmente essa responsabilidade, como também nos concedeu a honra de assistir a todo esse processo. Este é o "chico guapo", com apenas 21 anos, que se aborrece com um depósito chorudo dos pais na sua conta bancária e que, chegando a Santiago, vibra com a constatação de que não precisou de gastar um único cêntimo dessa quantia. Regressa ao Québec homem feito, orgulhoso por saber equilibrar as suas loucuras e devaneios com os recursos que adquire com o seu próprio trabalho!

Em si tem o dom natural da música. Indiscutivelmente!!! Nasceu para criar, interpretar e desfrutar todas as melodias do universo musical. Durante todo o Caminho oferece-nos instantes memoráveis! Tem um momento de pura genialidade em Arrojo de San Bol: aí, estivesse eu desprovida do meu sentido de audição, sentiria toda a sua arte de qualquer das formas, pois não eram as cordas da sua guitarra que vibravam, mas os nervos da sua alma.

Permanece silencioso muitas vezes. Não é o principal protagonista das mais famosas frases do Caminho. Os seus rituais cumprem-se em gestos, em sorrisos que se demoram, num olhar quieto mas sempre distante.

Beija a palma da mão aberta, lançando depois esse carinho aos Céus, acompanha o gesto com os olhos emocionados. Repete-se sempre que a chuva ou a neve nos dão tréguas ou quando algo mágico parece vigiar os nossos passos: saúda o espírito da avó Georgina, a quem todos nós aprendemos a respeitar e a invocar! "Obrigada Georgina" - é uma das frases mais pronunciadas por todos!

Tré, due, uno... Veloce! CAMINA! (Perla e Lola, a chegar a Burgos, 17 de março)








Conheci-a enquanto descia frondosos bosques que conduzem de Roncesvalles até Zubiri. E que frondosos eram, com as nuvens a ameaçarem chuva a qualquer instante!!! Era o dia 6 de Março, o meu segundo dia de caminhada, o primeiro para Perla. Na verdade, não se pode falar na bela italiana da Toscana, sem falar na sua fiel companheira e bravíssima Lola, a "perra" peregrina. Caminharam juntas até Finisterra, desde Roncesvalles. E depois de conhecido aquele que era o termo do mundo na crença ancestral dos nossos antepassados, resolveu-se que o Caminho é aquilo que o nosso coração deseja e que não se resume apenas à obediência disciplinada das etapas estipuladas convencionalmente. E assim, como que querendo mostrar que a vida é um ciclo e que não há como distinguir início ou final de coisa nenhuma, Perla e Lola terminaram onde começaram, aceitando o desafio de abraçar o mundo, atrevendo-se a medir o tamanho dos seus corações com o tamanho do mundo visto lá do cimo dos Pirinéus, onde o olho se perde no Infinito do céu casado com a imensa cordilheira. E acredito numa justa correspondência!

Perla é uma dessas pessoas raras que não tem hesitação no olhar. Olha de frente: olho no olho, sem dissimulação, sem medo de trazer a alma aberta. Na primeira vez que me fala, fala-me num Espanhol correctíssimo, mas o acento italiano denuncia-a à segunda palavra proferida. A presença de espírito também: "Ela é grande" - pensei eu!
Demasiado independente! Viaja no Inverno, trabalha no Verão. Conhece a América do Sul, a Índia, a Europa. No próximo Inverno África. Ausenta-se aos quatro meses cada ano, há muitos anos! Viaja sempre sozinha. Confessa que é a primeira vez que traz LoLa consigo. Conta-me tudo isto, creio, nos últimos três quilómetros até Zubiri.

Ao fazer-se peregrina aceita com humildade uma das maiores dificuldades de todo o Caminho: a de encontrar a cada etapa um sítio para Lola. Não se deixa abalar pela primeira recusa, nem pela segunda, nem tão pouco pelas outras que se seguem. Pelo contrário, é como se encontrasse aí mais e melhor força para continuar a labutar por aquilo que acredita ser justo e essencial. O bem estar do animal é para si tão importante, ou ainda mais, do que o seu próprio conforto. Várias vezes lhe disseram com voz grave e em tom seco que até Santiago não ia encontrar nenhum sítio onde o "perro" pudesse pernoitar. E a fiar-se na ameaça, nunca teria saído de Roncesvalles no dia 6, pois foi dessa forma que aí a receberam, acrescentando que dormiria "en la calle", se acaso tivesse escolhido esse "pueblo" para passar a noite.

Imagino a dimensão do seu auto-reconhecimento neste momento! Pois, tirando uma ou outra excepção, uma ou outra noite dormindo na tenda de Kiko, sempre foi possível encontrar onde dormir com tranquilidade na companhia da sua fiel amiga.

Frases famosas de Perla:
"Patatina" - "batatinha" em Italiano, forma carinhosa como se dirigia a Lola. Muitas vezes a palavra que nos despertava pelas manhãs

"Cativa" - normalmente seguida de um açoite no lombo duro e musculado de Lola; forma também muito meiga de se dirigir a ela, quando a "perra" matava um rato do campo em jeito de brincadeira ou fazia outra coisa qualquer que escapava aos padrões de comportamento idealizados pela dona, como perseguir gatos inocentes!

"Tré, due, uno... Veloce! Camina" - fórmula mágica para fazer com que Lola seguisse caminhando quando teimosamente parava em frente a um pedaço de comida.

"Cioccolata" - alimento essencial na dieta de Perla, admissível em qualquer refeição

"Me olvidé de las galleta" - significava que não ía tomar leite; a menos que houvesse "galletas" à venda no bar.

"Girate" - outra fórmula mágica para fazer afastar um corpo demasiado perto do seu quando, pelas mais variadas circunstâncias, tínhamos de dormir todos juntinhos!

"Me encanta" - expressão usada à exaustão para exprimir todo o tipo de emoção elevada que sentia quando algo lhe agradava. A única frase capaz de transmitir com a simplicidade desejada o resultado o encontro do meu com o Caminho dela!

domingo, 15 de abril de 2007

Cada encuentro es un encuentro contigo mismo


Quando no dia 27 de Março chegámos ao albergue de Mansilla de las Mulas, o hospitaleiro, um homem alemão de meia-idade - que, quando se lhe pergunta o nome, insiste em afirmar que se chama "Lobo" - convidou-nos a retirar, de um monte de várias, uma carta.

Todas as cartas têm uma fotografia e uma frase: um burro com olhar triste mas intenso e o seguinte dizer: "Cada encuentro es un encuentro contigo mismo". Foi o que a sorte me destinou.

Uma mera casualidade! Mas que me pôs a pensar nessa vertente do Caminho: a dos encontros. Os encontros com as outras pessoas e com os lugares sempre novos e frescos! E consequentemente cada um deles conduzindo a um cada vez mais objectivo e claro encontro comigo mesma.

Nesse dia fazia sentido pensar no significado mais superficial daquelas palavras. Foi quando conheci Giulia, o último membro a integrar o núcleo mais afirmado do nosso clã de peregrinos! E teria também, dois dias depois (eu a pensar que seria nesse dia) a confirmação do regresso do Pierre.

Lembro-me, talvez tenha sido aí que senti, pela primeira vez, que não iria conseguir separar-me deles. Sentia isso desde há muito, mas a partir daí fui-me ficando cada vez mais consciente desse facto.

Não sei se é do Caminho... que possivelmente torna as pessoas mais abertas, mais predispostas a mostrarem o que há de melhor em si; ou talvez faça a recusa das nossas intolerâncias mais mesquinhas e nos permita ver os outros de um modo descomplexado, sem preconceitos. Mas dá-me a sensação que as pessoas com quem tive oportunidade de privar, ou por elas próprias ou porque o Caminho admite outras formas de expressão do ser mais genuínas, têm um estatuto especial. Coisa estranha era encontrar no rosto ou num simples gesto de cada um dos meus companheiros algo que me fazia recordar alguém que já me era familiar. Acontecia com todos eles. E acontecia trazerem-me à memória pessoas e momentos da vida que pertencem já a um passado mais ou menos remoto. Mas ao mesmo tempo, nessa manifestação do familiar, traziam-me também algo novo e refrescante, como se o Caminho quisesse avisar-me que a minha sede de conquistar coisas sempre novas a cada instante também pode ser satisfeita se eu aprender a afinar o olhar que ponho sobre as coisas aparentemente desgastadas. Que a renovação da perspectiva é uma forma de conseguir novidades, tão válida como outra qualquer! Ou mais justa, talvez, por não alimentar nem encorajar divórcios desnecessários!

De qualquer das formas, essa foi uma noite tranquila. Fizemos o nosso jantar e a nossa festa depois do jantar, com o Kiko a proporcionar-nos "pura vida" em forma de música. E à medida que a tranquilidade se instalava nos nossos corações (coisa que quase sempre acontecia por altura das nossas demoradas"cenas"), fui sentido o amadurecimento da consciência do amor que tinha à minha nova família, que sendo recente também me permitia a presença e a celebração das várias famílias que fui constituindo ao longo da vida antes de iniciar o Caminho. E isto levou-me ainda à constatação de que o Caminho, não estando ainda a fornecer-me as respostas que eu desejava (talvez eu não tivesse colocado as questões que Ele desejava), me estava a conduzir a mim mesma. E que esses encontros com aquelas pessoas eram os "sendeiros" principais dessa rota essencial na vida de qualquer ser-humano.

Não faz sentido falar no meu Caminho, sem mencionar os momentos que os meus companheiros protagonizaram. O Caminho não se fez de estrada, nem de asfalto, nem tão pouco de quilómetro que se segue após quilómetro, nem de dias que se contabilizam uns após os outros. Constrói-se nos instantes em que se afirmaram esses laços, nas confirmações das afinidades, nos momentos em que, ainda que em silencioso segredo, jurámos equilibrar os nossos ritmos para que coubesse numa pequena eternidade o tempo que ainda nos restava até ao momento do apartamento definitivo.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Pura Vida!!! (Kiko, a caminho de Mansilla de las mulas, 26 de março)



Muitas vezes começo os meus artigos sentindo que as palavras fluem com a naturalidade do curso de um pequeno ribeiro. Obedecendo a uma qualquer lei natural, à tranquilidade do tempo que pede para não ser perturbado...
O difícil é encontrar o título, conquistar as palavras mágicas que possam num momento chamar atenção de um eventual leitor desprevenido.

Hoje passa-se o inverso. Encontro o título perfeito para nomear a nova epopeia que se avizinha. Agora, ainda em "jet lag", de regresso ao Porto, de novo instalada na estranha comodidade da minha casa, sinto o arrepio do Caminho como uma ferida que acaba de romper. Mas dificilmente encontro as palavras certas para dar início ao meu relato. O que me surge no imediato daquilo que ainda me aparece como uma tranquila e doce alucinação é a feliz constatação de que nos últimos trinta e seis dias eu fui premiada com a possibilidade de descobrir e sentir a vida em estado puro.

Pura Vida, sem o mais discreto e imperceptível intervalo. Assim se passou... como se fosse um daqueles saborosos sonhos que nos desperta pelo tranquilo da noite e que depois nos lança na ingrata luta em tentar dormir de novo para agarrar, com os olhos cerrados de vontade, o bom que era esse delírio.

Mas no caso, o corpo mexeu-se, viveu, transportou-se, sofreu-se também! E se a vida não era sonho assim o pareceu durante os dias do Caminho! Agora é a aurora... frustrada pelo olho que não quer abrir, que ainda aperta a pálpebra rebelde para não perder o seguimento do encantamento da história.

O Caminho aqui começa, talvez, de verdade! Pois que o deleite da Pura Vida não é coisa difícil de desfrutar, tão natural que é a forma como nos damos a recebê-La como Ela própria! O difícil é agora afinar as energias absorvidas à casa aonde regressamos. E para isso urge pensar o caminho que nos levou a Santiago, descartando os pormenores do relato diarístico, mas concentrando o pensamento apenas na emoção que foi cada encontro para que ela possa permanecer latejante na flor da pele por outra eternidade... e agora sincronizada com uma uma razão que torna a ser "civilizada"

Por isto se alongará o texto da aventura... que é também o exercício necessário na busca, agora, de uma nova espécie de equilíbrio. Pois que o desassossego de outrora já não existe e tão pouco é bem-vindo; e as carências que agora surgem são tão novas como uma manhã fresca passados séculos a dormir até ao meio dia.

Desconhecia ainda, nem tão pouco suspeitava, a sensação da Galiza! Mas avizinhava-se levemente a nostalgia que nos preparava para a despedida. Caminhava com Pierre, Kiko, Perla, Giullia e Lola, em direcção a Ponferrada desde Foncebadón, depois de uma sessão matinal de Yoga, com Filipe o dono do albergue, e de ver pela primeira vez na minha vida um homem a quebrar um jejum de quarenta dias: Jesús, o hospitaleiro! No trajecto, a emblemática Cruz de Ferro. Cumpre-se o ritual do despojo da culpa e pouco tempo depois alcança-se Manjarín. O frio convida a um café quente com "galletas". À entrada do albergue está uma placa em azulejo com um poema, singelamente assinado por "Peregrino Manuel". E as suas palavras expressam com uma assertividade precisa a reflexão que se impõe neste momento.



"Peregrino que subes montes para ver horizontes
Alma errante y dolorida
Con hambre de verdades que busca
Soledades para tener compañia.

Mente vagabunda peregrina,
Que vuela más que camina
Que aún no llega, y ya se vá
Tu camino va a Santiago,
Y tu... ? a donde vas?"