
A determinada altura gritei esta frase. Com a Catedral à frente dos olhos cheios de lágrimas, o ânimo esgotado venceu-me. Consegui geri-lo sem vacilações até ao Monte do Gozo, mantendo-me forte e animada, apesar das oscilações que comecei a sentir a partir do momento em que o Caminho começou a cheirar a Galiza.
Do outro lado do telefone, Giulia substituia-me nessa batalha ingrata, que é a de ir ao encontro de forças quando já não as há em reserva. E dizia-me que o albergue não tinha nada que saber, que era só seguir as setas, que da última vez que me vira estávamos perto, muito perto...
E não se cansava de me gritar que eu não podia ficar ali, no meio da noite, às portas de Santiago, que não eram os últimos cinco quilómetros que me íam atrasar no meu propósito de abraçar o Santo. Que eu tivesse calma, que estava perto... Era como se ela me sentisse ali a duzentos metros que estávamos uma da outra, como se pudesse testemunhar o meu nariz a roçar as portas do albergue, os meus olhos cegos do esforço... o coração frustrado pela iminência cruel do regresso a casa.
A Giulia ensinou-me esta lição: que é importante guardar em secreta segurança alguma da força que nos motiva. Ela fazi-o sempre. Era-lhe natural e estava-lhe essa determinação presente no olhar azul forte, imenso...
A Giulia entra no Caminho bem antes de nos encontrarmos perto de Mansilla de las Mulas. Vinha de Itália encontrar-se com a amiga: a Perla. E a outra italiana sempre falava dela, sobretudo quando começou a precipitar-se o dia da sua chegada. Contratempos atmosféricos arrastaram-nos os passos e por isso não foi possível ir buscá-la a León, como inicialmente estava combinado. Tínhamos um dia de atraso. E então a pequena "grande" Giulia inicia o seu Caminho ao revés. De León a Mansilla, de Mansilla a Reliegos. Aí, o Kiko, o Juan e eu pudemos testemunhar a emoção do reencontro das duas amigas. Giulia estende-nos a mão para nos cumprimentar, mas logo logo cede ao forte abraço que temos vindo a prepara-lhe desde há dias. "Bem-vinda sejas, peregrina!". Creio que nenhum de nós fica indiferente àquele momento de alegria elevada ao mais alto grau!
Passados alguns dias, já com Pierre de novo, todos tivemos a oportunidade de recordar os respectivos dias inaugurais de caminhada, revendo nos passos ainda pouco castigados da Giulia, o ritual de iniciação do corpo. Doía-lhe fosse o que fosse (na maioria das vezes era o "ginocchio"), mas o Caminho cumpria-se... num ritmo imposto pelas suas necessidades óbvias e a que todos estávamos dispostos a respeitar pelas razões evidentes da amizade. Por brincadeira, imitávamos-lhe o coxear, dizendo que era por solidariedade... e ela, cheia da sua graça tão particular, sorria em silêncio da nossa patetice , não descartando aquelas forças do espírito que só cada qual sabe onde as tem quando parecem que já se foram. E ela, bem se pode dizer que as tinha de reserva. E que mesmo assim lhe sobravam para depois poder partilhar com quem não tivesse forma de saber onde estavam as suas.
Ela foi o último membro a integrar o núcleo rijo de peregrinos que eu tive a honra de conhecer. E no meu último momento em Santiago, quando já não tinha mais de quem me despedir, porque todos os outros nessa altura já tinham dispersado rumando por novos caminhos, tinha-a comigo, marchando ao meu lado por aquelas ruas cheias da nossa saudade. Quase em silêncio nos entendíamos! Fosse pelo olhar ou pela incontestável identificação das almas, ou porque o momento exigia essa contenção.
No meu silêncio da altura, e no de agora também, não me esqueço do tamanho da sua força. E faço por manter sempre bem viva, à flor da pele, a sensação que foi rencontrar o rumo do Caminho, no dia do Monte do Gozo. Pois só assim posso dar-lhe justa homenagem, a esta flor da Toscana: mostrando ao mundo e à vida que vou saber aplicar aquilo que ela trouxe ao Caminho para me ensinar: não por imitação, mas por pura inspiração.




