O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Algures em Agosto, talvez Finisterra...

Naquela manhã já nada me devolvia a sensação do dia anterior. Tinha dormido uma paz angelical. Com a noite foram-se todos os cuidados. Faltava cumprir os últimos quilómetros e conhecer o sabor original das coisas terminadas. Eu já adivinhava: nada transcendente ao aproxirmar-me da Catedral. Chegar até ali significava o apartamento, ainda que ilusoriamente temporário, daquelas pessoas que eu aprendi a prezar como se laços de sangue nos unissem.
Por outro lado, ao contrário da Perla, da Giulia e do Kiko, eu já conhecia a cidade da Catedral. Nenhuma surpresa à minha espera. Durante todo a rota, aquele era o dia que me mais me aproximava de casa.
A emoção que eu imaginava antes de realizar o Caminho, nada tinha que pudesse relacioná-la com a simples chegada a Compostela: o destino tão desejado! Era imensa, sim! Mas estava em franca associação com essas ideias do afastamento, do retorno a casa e com uma certa sensação de que algo ficava por cumprir... talvez Finisterra!
Semanas antes eu tinha prometido à Perla que a acompanhava até lá onde o mundo acaba. Mas fui obrigada a recuar por me ter sido feita, durante o Caminho, uma proposta de trabalho que naquela altura me parecia irrecusável e que implicaria, necessariamente, o meu regresso ao Porto por volta do dia 10 de abril. Por enquanto, Compostela!
De maneira que me sinto como protagonista de um desvio não desinteressado, obrigatório e fundamental. Porque a intenção, desde Burgos era a de que os meus passos me conduzissem até ao ponto em que a Terra fosse superada pelo Oceano para que, assim, o mundo, o Caminho ou o que seja,pudesse conhecer o seu termo.
Hoje foi dia de atingir outra Catedral, de cumprir a finalização de outro Caminho. Não sei das possibilidades de levar a cabo esta "outra" empresa se tivesse seguido a Finisterra naquela altura. Sei apenas que havia, talvez, desistido deste "outro" sendeiro há muito tempo, por julgar que me faltariam as forças necessárias. Por julgar que já não as tinha em reserva. E a inspiração que me fez retomá-lo vem-me precisamente do confronto com esse trabalho que aceitei e que me afastou de Finisterra. Acordei para essa outra realidade: a das vocações e das intuições e a de que não há porque nos sentirmos culpados se buscamos na vida uma realização profissional conforme às nossas inclinações essenciais.
Assim nesta malha extensíssima de associações entre umas coisas e as outras, decidi continuar esse outro Caminho há muito tempo começado, motivado que foi por um sonho, o qual insisto em recuperar. Hoje conclui-se, talvez, a mais importante das etapas. E hoje, tão naturalmente como as inspirações, vem-me, de novo, aquela sensação de algo que fica por cumprir. E questiono-me, necessariamente, se este não será, então, o instante em que devo devolver-me a Compostela naquele ponto em que suspendi a minha Peregrinação.
Hoje sinto-me em condições de poder responder, em parte, a algumas pessoas que me perguntam se o Caminho mudou os rumos da minha vida. A resposta é intuitivamente afirmativa. Porque agora é o verdadeiro momento do desbloqueio, aquele em que me é possível vislumbrar com clareza os verdadeiros sentidos de Compostela. Não sinto mais o medo de ser ultrapassada pelos outros ritmos da vida. Hoje rompo a terra definitivamente.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Não vou ficar por aqui...

Não vou ficar por aqui, nem quero! Em breve, vou publicar alguns artigos que tenho vindo a preparar: memórias do Caminho, descrições dos percursos, reflexões, continuações...
A diversidade da matéria, a par do seu carácter um tanto esotérico e metafísico, impõe-me agora, necessariamente, uma pausa. Atravesso um momento decisivo. Não que a preparação desta fase final do curso se mostre incompatível com a composição dos relatos desse "outro" Caminho que percorri e percorro ainda. Muito pelo contrário, é a Santiago que vou buscar muita da inspiração que me motiva agora nestes últimos, diria eu, cinco quilómetros de um Caminho bem mais antigo, que cumpre agora concluir. Sinto-me no Monte do Gozo, vislumbrando, deliciada, a Catedral. E pela primeira vez não há lugar para oscilações de humor que tantas vezes, ainda que com o objectivo à vista, me afastaram da conclusão de muitas outras tarefas, fazendo de mim a Rainha dos projectos inacabados.
Mais ainda: é Compostela que me dá a certeza inequívoca de que este "outro" sendeiro mais antigo, não deve ser abandonado, logo que esteja concluída a primeiríssima etapa. Necessariamente - diz-me a intuição - estes dois caminhos haviam de se cruzar.
Justifico, assim, o meu afastamento temporário pelo facto de me encontrar seriamente contaminada por uma terminologia e uma metodologia de escrita diversas daquelas que tomo por fundamentais à composição dos meus relatos sobre Compostela. Estou mais científica e objectiva. Trago a inspiração obstinada. O curso livre da imaginação, como se de um ribeiro se tratasse, encontra-se bloqueado. Começo a escrever e tudo me parece que necessita de ser emendado, questionado, reequacionado. A sensação é a de estar num exame de Literatura Medieval. E embora exista uma forte afinidade entre os dois Caminhos, não quero, de forma alguma, que essa assimilação ultrapasse o âmbito que lhe compete: que é o da inspiração positiva de um sobre o outro.
Assim, tendo em conta que não amadureci ainda a destreza que me permite alternar entre um modo de escrita crítico e um modo de escrita fluído quando quero - encontrando-me ainda
à mercê das circunstâncias envolventes - resolvi adiar os meus relatos para um momento em que se dê, de forma natural, o desbloqueio.
Desengane-se quem suspeitou que, estando eu agora inserida nas minhas tarefas quotidianas ditas "normais", me afastaria definitivamente do estado de espírito que me guiou a Compostela, o qual insisto em alimentar, teimosamente, através das coisas que me ponho para aqui a escrever.
Compostela está, mais do que nunca, presente na minha vida. Aliviada que está, quase inteiramente, aquela sensação de estado alucinatório que eu descrevi no artigo intitulado "Pura Vida", aquando do meu regresso, o Caminho vai-se revelando doutras maneiras. Mas isso é matéria para os próximos capítulos.

domingo, 3 de junho de 2007

A primeira conversa com Santiago

_ Bom dia! Hoje começo mais cedo. Vemo-nos em Cizur Menor, mas o mais certo é encontrarmo-nos por aí. Eu vou devagarinho. Vocês alcançam-me. Até lá, Bom Caminho.
Eram seis e meia da manhã quando Peter despertou na cama alta do beliche. Os olhos muito abertos fixaram-me na tentativa de deter o meu passo pronto a iniciar a etapa a qualquer instante. Querendo pedir-me que esperasse, senti que não foi capaz de encontrar as palavras exactas que pudessem afrontar a minha vontade tão assumida. Cumpridas todas as operações logísticas matinais, encontrava-me já de mochila posta nos ombros, o gorro de lã enfiado até às orelhas. Peter parecia adivinhar a pouca fé que eu própria depositava nas palavras que acabava de dizer. Tínhamos apenas dois dias de Caminho e já sabíamos que corríamos o risco de ver a nossa boa vontade ser ultrapassada por um desígnio superior, cujo raio de acção ultrapassa, sem unidade lógica de medida, o nosso campo de manobra. Assim, deixei o albergue, acrescentando ao da mochila, o peso de uma promessa que, eu já sabia, não estava ao meu alcance.
Os escassos quilómetros que separam Zubiri de Larrasoaña cumprem-se com o custo dos primeiros castigos. Pouco apegada ainda aos rigores da estrada, é nessa manhã de atmosfera indecisa que sinto os primeiros cuidados do corpo acostumado às mordomias do sedentarismo. Cruzar o Caminho sem ser seguida pelo olhar atento de um companheiro torna a empresa mais dolorosa. Não ter ninguém com quem partilhar o tempo e a delonga das distâncias faz-nos mais conscientes da estrada; e o que no dia anterior pareciam ser três mil metros exactos, nesta nova condição auto-imposta, adquire uma dimensão imensurável. Em perfeita sintonia com o fardo das culpas extra-sensíveis, veio agravar-se o tempo atmosférico, que tal como eu, no início daquele dia longo, arriscou uma falsa promessa, diluindo a luz de um sol pouco empenhado em exibir-se sob um céu cinzento, denso e pesado. Seria assim naquele dia e no próximo.
Wolfgang diz-me que não chove, que vai abrir... Eu não me atrevo a desrespeitar o aviso daquela nuvem severa que vejo engordar acima da minha cabeça. E com ares de menina sabichona de nariz empinado, invisto-me de todas as protecções possíveis contra uma possível tormenta. Suspeita confirmada.
Em breve estaria subindo uma ravina de meter medo, com o sendeiro a emagrecer, enquanto ventos que sopravam dos quatro cantos me fustigavam a determinação. No fundo do vale imensamente inclinado, o rio Arga corria às pressas, como que querendo escapar-se, também ele, do aguaceiro.
A dada altura, lembro-me, experimentei um uma ligeira sensação de desespero. Trazia a roupa colada ao corpo frio. A vontade de vencer aquele primeiro obstáculo era tão grande que me esqueci de comer. Tinha comigo apenas alguns frutos secos. Madame Janine, em Saint Jean Pied de Port, tinha recomendado, num tom maternal: "Leva sempre contigo frutos secos para comeres durante o caminho". Foi o meu pequeno-almoço: amendoins e pistachios.
Já convencida de que o meu limite estava perto de ser transbordado, fui premiada com a aparição de uma zona de repouso no meio de um parque recreativo. A minha intuição levou-me até ao Wc que aí havia (foi o único que encontrei, assim no meio do nada, durante todo o Caminho a Compostela). E ainda que o desconforto da instalação, que também se encontrava inundada, me pudesse fazer hesitar, com alguns malabarismos engenhosos, lá consegui reajustar a minha indumentária. Troquei para as calças de snowboard, quentes e impermeáveis. Enxuguei o cabelo, sequei o corpo, comi alguns amendoins e, recuperadas as forças, segui escalando uma escadaria íngreme e precária, muito desconfiada da certeza daquela seta amarela que assim me ordenava.
Atinjo de seguida uma zona montanhosa de onde se vê um pequeno "pueblo" a poucos metros de distância. Examino com cuidado a próxima indicação do Caminho: manda virar à esquerda. Ali posta, assim no meio de um terreno enlameado e dado ao abandono, surge-me o absurdo de questionar se se deve virar à esquerda antes ou depois de passar a placa. O Caminho parece querer seguir precisamente nessa direcção, mas o único carreiro aparentemente lógico encontrar-se a uns metros mais à frente.
Não sei o tempo exacto, mas devo ter andado perdida durante cerca de uma hora. A escolha que fiz fazia-me subir por entre extensões cada vez mais alongadas de plantações de trigo e que, a dada altura, desapareceram do alcance imediato dos meus olhos, fugindo para o fundo do vale, cada vez mais afastado dos meus passos. Quando o sendeiro que seguia se confundiu, enfim, com a natureza agreste de um terreno onde não há sinais de vida humana, dei-me conta do meu erro. E essa consciência doeu-me mais do que todos cuidados que se agravavam à flor da minha pele. E essa dor lembrou-me dos medos infantis. Como uma criança assustada, chorei um pranto desesperado, à medida que recuava no meu erro, determinada a regressar até onde me lembrava de um abrigo seguro. Aí pensaria, com calma, no que fazer a seguir. O Parque recreativo, sim! Lembrei-me do Wc. Pensei no frio que sentia. Trazia as pernas secas e quentes, o tronco ensopado e gelado, mas as pernas secas e quentes. Aquela ideia de mudar de roupa tinha-me vindo do nada, foi uma intuição que segui. E como essa, sem me dar conta, nesse instante, obedeci a uma outra: quando dei por mim, estava já de olhos alçados ao céu, as palmas das mãos unidas coladas no centro do peito. Pela primeira vez, em muito tempo, rezava. Foi a minha primeira conversa com o Santo. Pedia-lhe, tão simplesmente, que me ajudasse a reencontrar o meu caminho de regresso. Que me ouvisse, que perdoasse o meu desmazelo, a minha afronta orgulhosa, que me desse uma trégua, que serenasse, por um instante, a fúria dos ventos e das chuvas...
Em pouco tempo alcancei a seta amarela que me provocou aquela desorientação. Mas o ponto culminante do meu sossego e da minha tranquilidade só foi atingido assim que vi o vulto de um peregrino atingir o topo da escadaria que vinha do parque. Era a Mariona. Logo, logo fui colocada, por sua orientação, no caminho correcto. Sempre era para virar à esquerda por onde parecia não haver trilho coerente que guiasse a Compostela. À primeira seta, a pouca distância do chão, verguei-me para a beijar. Mariona sorriu ao ver-me fazer aquilo. Quando me ergui, a chuva tinha parado, o vento tranquilizara. Segui para Pamplona. Até lá, não voltou a chover.
Passei a noite sozinha no quarto de uma pensão, muito pensativa e muito esgotada.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Zubiri

Chega o tempo da cura de todas as saudades. O processo arrasta-se, demora-se numa valsa lenta de passos incertos. Se num dia parece que atinjo a libertação dos saudosismos do Caminho; no outro, uma aurora de cara lavada vem devolver-me a angústia de já ter sido subtraída daquela dimensão supra mágica.

Hoje retrocedo como uma romântica que sente na carne a vibração da consciência das saudades. Caminho pelos bosques encantados que conduzem a rota até Zubiri, no dia 6 de março, debaixo de aguaceiros intermitentes. Os meus passos são guiados por uma doce ilusão infantil, como se o Caminho fosse um jogo de crianças. Em breve, estarei apta para aprender a elevar o meu sentido de cuidado, equilibrando-o com a manutenção do meu sorriso constante e inebriante de menina.

Tal como agora, nesse dia surpreende-me uma estranha necessidade de isolamento. Consigo uma certa evasão mascarada. Sem declarar abertamente a minha vontade, vou-me atrasando, tomando da calma do tempo o justo exemplo da imitação. Estou metida numa floresta mágica, cuja sensação só conheço da minha imaginação destravada alimentada a contos de fadas e outras estórias de encantar. Os companheiros vigiam-me com a descrição de quem conhece e teme o melindre causado pela provocação de fronteiras desconhecidas. Esperam por mim no dobrar da próxima curva, a pretexto de repouso pelo muito caminhar.

O dia é verde escuro e um pouco húmido. O sentido pronunciado do sendeiro dá uma leve sensação de descida aos infernos dantescos, rapidamente acalmada pela aparição da minha Beatriz. Estou no silêncio de mim mesma. Desejo desobstruir todos os poros para poder estar inteira na entrega. O passo é trôpego como se estivesse na experiência do meu primeiro ensaio. O Caminho oferece-me a primeira vez da capacidade de estar desligada, de estar inteiramente desligada... Ganho asas, aprendo a imitar o sorriso das coisas simples e às custas de tanto castigar o corpo e de tanto insistir na libertação da alma, sinto-me leve e feliz como uma flor numa manhã simples e fria de Primavera.
Recebo como herança desses momentos a intuição da Natureza. Com ela, a astúcia e um certo calculismo. Postos em prática, com algum savoir faire, pretendo apenas não frustrar a preocupação daqueles que têm o olho pousado nos movimentos novos que experimento para me ampararem na queda, caso ela aconteça. Pelo sorrateiro da manhã, ainda a alva pela metade, desperto-me zelando pelo silêncio dos sonhos de quem ainda dorme. No dia em que deixei Zubiri, experimentei a sensação do passo trôpego e do voo vertiginoso sem a presença da luz dos olhos que insistem em proteger o meu desequilíbrio.
Ter o poder de decidir o ritmo dos passos, a escolha dos desvios, a hora dos descansos, o momento dos enganos, o instante da rendição a Deus, o reconhecimento das culpas, o purgatório dos erros... tudo isto traz até a mim a imagem virgem da minha matéria essencial. Regresso a essa origem deliciosa e faço-me embrião de uma nova vida.