O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

terça-feira, 17 de julho de 2007

Lições sobre dar e receber


Naquele dia a mãe levantou-se à hora de sempre. Os três filhos varões seguiram-lhe a rotina maquinalmente. Pouco depois estariam todos reunidos em volta da mesa, cada um reclamando a sua parte do pequeno-almoço. No pequeno casebre situado rés ao chão havia uma rectângulo minúsculo encaixilhado a madeira azul com pretensões de janela. A mãe, depois de saciada a necessidade primeira do dia, afastou uma cortina que perdera a memória da cor imaculada que um dia tivera e deitou os olhos à rua deserta. Viu a neve que caiu durante a noite alcatifou o chão magro da rua com um imenso tapete branco aos flocos. A mão gorda e calejada soltou depois o pano encardido, e lá dentro os filhos nem deram pela oscilação da luz estrangulada pelo gesto. De seguida a boca da mãe sorriu, mostrando uma fileira de dentes grandes, fortes e cintilantes, disse uma série de palavras em árabe cujo entendimento escaparia, de certo, à compreensão do estrangeiro forasteiro que por ali passasse, mas que, seguramente, lhe provocariam um determinado encantamento, pelo exótico que havia naquelas sílabas.
Pela manhã seguir-se-ia, certamente, uma série de rituais de louvações a Alá, Deus no Céu. O mais velho teria, com certeza, um ofício; na ausência do pai cabia a si a responsabilidade de garantir o sustento da casa. Teria saído cedo. Talvez trabalhasse numa obra ali perto. Não! Não seria muito longe porque por volta do meio-dia estaria de regresso para o almoço em família.
Durante toda a manhã a mãe tomaria as providências necessárias para assegurar que aquele dia em nada seria diferente de todos os outros. E por isso repetiu cuidadosamente todos os gestos dos dias anteriores, enquanto os mais pequenotes faziam por não desperdiçar nenhum instante da infância, ora correndo pela casa, ora improvisando as brincadeiras que lhes viesse à cabeça.
Por volta das onze e meia a mãe dirigir-se-ia para a porta que dava directamente para a rua, arrastá-la-ia com a mão que guarda todos os segredos e inspiraria o ar frio da neve que nesse instante denunciava já uma pequena trégua. Nesse dia passariam em frente à sua casa três peregrinos e um cão, fustigados pela neve. Outros já teriam passado ali durante as primeiras horas do dia, que eram iguais às horas dos outros dias. A mãe não o sabia. E se o soubesse, não o estranhava. Porque aquele dia era igual a todos os outros.
Um relógio invisível alertou-a para o aproximar da hora da refeição. Desapareceu no interior da casa e logo regressou para a soleira da porta com um fogareiro que acendeu a carvão. Quando o fogo estava já a modos que se pudesse nele cozinhar, trouxe um alguidar com espetos de alumínio cheios de pedaços de carne de borrego e pôs-se a castigá-los ao lume. A neve voltaria em poucos instantes, mas mais sossegada, mais solitária; tinha conseguido descartar-se da ira das ventanias.

Com a única preocupação de assegurar que aquele dia em tudo seria diferente de todos os outros, durante cerca de hora e meia, três peregrinos e um cão caminharam aos custos desde Arroyo San Bol até à pequena localidade de Hontanas. O andamento fluído das pernas viu-se gravemente afectado pela neve que ficava quase pelos joelhos. Para dramatizar um pouco mais a situação, o vento dava de frente para eles, fustigando-lhes o rosto com bolas de gelo arremessadas com ira, que mais parecia que estavam sendo castigados por uma vontade invisível; de maneira que caminharam largo tempo com a cara voltada para o lado, sacrificando apenas uma das faces. O andar assim enviesado, a densa camada de nevoeiro, os olhos que forçosamente se cerravam para que não fossem mutilados pelo gelo acutilante, tudo isso lhes dava a sensação de um caminho percorrido às cegas, apenas socorrido por uma aguçada, mas ainda delicada, intuição.
Hontanas desvendou-se de repente, rasgando o denso manto do nevoeiro que a impedida de ser vista do alto da colina. Felizes por avistarem um porto seguro ao seu alcance, os peregrinos correram na busca de um estabelecimento qualquer que estivesse aberto e onde pudessem recompor-se. Pareceu-lhes que o temporal amainara a sua fúria, mas tratava-se simplesmente do abrigo naturalmente fornecido pelo pequeno pueblo, que se situa no fundo de um vale pronunciado, onde os ventos raramente descem. Em Hontanas havia apenas um estabelecimento aberto e que era ao mesmo tempo café e albergue de peregrinos. Logo, logo foi encontrado, a meio daquela que parecia ser a rua principal, senão a única, da pequena aldeia.
Chegados à porta que estava aberta, deram com uma mulher de lenço na cabeça, vassoura descabelada na mão e com aquele ar que faz com que as pessoas pareçam que já nasceram com oitenta anos. Gritou que o bar estava fechado, que era a hora das limpezas e que se quisessem comer que esperassem lá fora, que não ía permitir que entrassem porque lhe estragavam a fascina toda. Ah, e foi muito clara quando rematou, gritando também, que "o cão nem pensar".


A Lola, como que adivinhando que mais uma vez teria de ficar abandonada ao ostracismo da rua, enquanto nós nos regalávamos com o quentinho e com o que houvesse para comer, olhou para nós com aqueles olhos tristes que só os cães sabem fazer e foi como se nos pedisse que fôssemos ao encontro de outro sítio. Ao lado, metido numa viela estreita, estava um outro bar fechado, onde, depois muito de insistirmos no batente da porta, a empregada cubana nos deixou entrar, às escondidas da patroa. Deixou-nos entrar o cão e fez sinais de pouco se importar com o estado em que lhe deixámos a casa. Uns bons quilos de neve foram ali depositados e depois de derretida no chão, a neve não parece mais aquela coisa linda que é enquanto manto que cobre os montes e os telhados de tons imaculados.
Com a fome saciada apenas a café com leite quente, mas já mais recompostos, retomámos o nosso trajecto em direcção a Castrojeriz. Mas quase, quase a sair de Hontanas, o Caminho de Santiago presenteou-nos com uma das maiores maravilhas de toda a viagem. Ao fundo da rua que abandona o "pueblo" estava uma mulher com ares de marroquina a preparar um delicioso barbecue na soleira da porta. Ainda que continuasse, a neve não parecia incomodá-la em nada do que fazia. Abanava o lume para manter as chamas atiçadas sem deixar que fogo lhes pegasse demasiado, enquanto os espetos cheios de carne eram, de tempo em tempo, balouçados de um lado para o outro de forma a ficarem bem tostadinhos. Era um perfume a comidinha, que nem é bom pensar nele ou tentar imaginá-lo, que logo a boca se nos enche de água e o estômago de cócegas. Assim nos viu, assim nos estendeu três espetadas da sua carne. E fazia-o como que respirasse, com a mesma atitude com que aceita a cadência sempre acertada do seu coração, como se aquilo fizesse parte dos seus rituais diárias, como se aquele gesto fosse, enfim, mais uma maneira de garantir que os dias são todos iguais uns aos outros. Logo, logo, surgiram três rapazes excitados com a nossa imediata agitação, incrédulos que estávamos com a aquela dádiva maravilhosa. E o mais velho deles depressa trouxe até nós um tabuleiro com três copos de chã quente de hortelã-pimenta. Aquele que tinha ares de ser o mais novito encarregou-se do pão. Obviamente não tivemos como recusar aquele manjar, nem como fazer a cerimónia costumeira do "não quero, muito obrigado; não precisa de incomodar-se". Recusar aquilo seria mais do que uma grave ofensa para com os nossos estômagos encolhidos, resultaria no maior dos insultos, tal foi a naturalidade com que aquela mulher se ofereceu para nos matar as necessidades mais visíveis e que não tinham como ser encobertas, pois ali era só corações escancarados.

Aquela mulher não sabia uma palavra de nenhum dos idiomas que nós tínhamos como possíveis. Nem nós sabíamos o seu, ainda que tivéssemos feito algum esforço para comunicar com ela através de palavras. Mas ela sabia muito mais do qualquer um de nós dos idiomas em que se entendem os corações genuínos, que é só abrir o coração daquela forma e já está... Não soube o nome dela. E como insisto nesta teimosia de dar nomes a todas as coisas e a todas as pessoas de forma a ter como invocá-los para não esquecê-los, insisto em chamar-lhe mãe.

Agradecemos, seguindo a nossa marcha, e a Lola ainda para lá ficou a admirar a mãe. Imaginei que partilhava connosco tão simplesmente o espanto maravilhoso que a cena provocava, mas na verdade era a ver se lhe calhava alguma coisa a ela também... E aquele dia foi para uns e para outros igual e diferente de todos os outros. E a ordem das coisas afinou-se mais uma vez.

sábado, 14 de julho de 2007

Llamando a las puertas del cielo


Um homem vinha ao nosso encontro todas as manhãs. Desde Grañon. Esse homem era Patxi Kalea, "una luz en tu camino", segundo o próprio. É um dos veteranos das andanças compostelanas. O nome, a personagem e as histórias de Kalea representam, no seu conjunto, um dos ícones do Caminho. Por essa estrada fora, desde Navarra até à Galiza sabem-se as suas aventuras. O homem é indubitavelmente célebre. A sua fama é o resultado de um trabalho árduo de quem adopta simultaneamente, quase como profissão, as facetas do peregrino e do hospitaleiro. É assim que se assume num primeiro contacto: "hospitalero". O hospitaleiro que caminha ao lado dos peregrinos, o que conhece todos os sendeiros e o pó de todas as estradas que conduzem a Santiago.


Patxi é um negociante. Em troca dos seus valiosíssimos conhecimentos sobre todos os "pueblos", pede-nos tão somente a atenção para as histórias que conta sem ter tempo de se cansar naqueles raros silêncios que sobram entre as palavras. Essas hilariantes aventuras, inocentemente forjadas pela sua imaginação fértil no desejo de protagonismo ou ainda que verdadeiras, têm uma personagem principal: ele próprio. Histórias sobre si mesmo, contadas sempre na terceira pessoa, como se ele, Patxi Kalea, quisesse adoptar aquela visão neutral de um narrador descomprometido com as façanhas do Patxi Kalea herói de Compostela. Os olhos, vai pousá-los sempre num ponto distante, fingindo não estar atento a quem o não está às suas palavras. O dom da palavra ninguém lho nega, mas a grande dívida que as suas histórias denunciam com o princípio da verosimilhança acabam por promover o desinteresse geral da audiência.


Quando cheguei a Grañon na companhia de Pierre e Juan, estava por lá muito gente. Patxi era um dos peregrinos. Mas devido à sua postura extravagante, não sei bem porquê, evitei qualquer tipo de contacto com ele. No dia seguinte, durante um momento de repouso no caminho, estando eu sozinha, vi aquele homem caminhar na minha direcção, coxeando, com grande esforço. Estranhei o caminhar de Patxi e estando ele a escassos metros de mim, gritei-lhe no meu Espanhol improvisado porque caminhava assim, se tinha bolhas nos pés, se lhe doíam as pernas. É que no dia anterior, à chegada ao albergue, todos sofríamos do mesmo mal, todos nós cambaleávamos um pouco no nosso jeito de andar, sobretudo no final de cada uma das etapas, quando o corpo arrefece e, aos poucos, se desabitua do ritmo da caminhada. Mas, pela manhã, ainda que o corpo sinta o peso dos músculos que cresceram no dia anterior, logo logo adopta uma postura natural de quem, ainda que tenha dores, aprendeu a camuflá-las. Patxi responde-me: "Camino assí porque soy minusválido". Pelos vistos eu não era a primeira pessoa naquele dia a ter aquele comentário inocente mas, ainda assim, idiota. Kalea tem uma deficiência física, uma perna mais curta que a outra, uma das ancas mais elevadas: apenas um pormenor que não o impede de ser igual aos outros peregrinos e que ainda lhe acrescenta a desculpabilização de poder seguir de autocarro quando a dor se torna insuportável. Quando isso acontece, é o primeiro a chegar ao albergue. Aí já tratou de negociar com os colegas hospitaleiros a estadia da Lola. Tratou já dos pormenores do jantar. Em Belorado, prepara uma deliciosa ceia para todos os caminhantes esgotados e famintos. Um hospitaleiro e pêras!!!


Em Agés, onde também se adiantou aos nossos passos, depois do jantar, Patxi, sentindo a ameaça que a música do Kiko fazia às suas narrativas, mas reconhecendo o valor do inimigo, propôs que todos cantássemos uma canção do conhecimento geral, já que as melodias que o Kiko trazia do longínquo Quebec nada lhe diziam. Todos cedemos. E Kiko começou a arranhar na guitarra os acordes do "knocking on the heaven's door" do Bob Dylan. Deu-se ordem a Kalea para cantar. E ele, nos mesmos modos em que costuma contar as suas aventuras, pousou os olhos tecto, e em vez de cantar começou a "dizer" a letra da música. Em vez de Inglês, em Espanhol. Primeiro foi o espanto porque nenhum de nós estava a fazer, no imediato daquele evento único, a associação entre a melodia da guitarra do Kiko e as palavras do Kalea. Depois a gargalhada geral, quando no momento do refrão, soou a frase "Llamando a las puertas del cielo". Aquele instante havia de tornar-se numa das memórias mais vulgares de todo o Caminho.


Depois foi o telefonema. Já Patxi se encontrava em Madrid, em virtude de ter de prestar prova de vida para que o Estado Espanhol continuasse a pagar-lhe o subsídio de invalidez. Liga-me, estava eu em O Cebreiro. Dizia-me "Mira el cielo". Eu pedia-lhe que falasse rápido, que o crédito do meu telemóvel estava a esgotar-se. Ele repetia a ordem. Pelo tom não era para desobedecer. mas eu não tive como. Tinha acabado de subir O Cebreiro, estava a rebentar de cansaço e ainda tinha uns seis ou sete quilómetros pela frente. Nesse instante estava num bar a refazer-me. E gritei-lhe ao telefone que não podia nem queria"mirar el cielo", que falasse de uma vez. E Patxi, na sua voz calma e soante, disse-me: que em Madrid se via o arco-íris e que se eu olhasse para o céu, ía poder vê-lo também. Eu respondi-lhe que ele era louco, que o céu na Galiza estava cinzento e carregado. Era só isso que tinha para me dizer. Patxi tinha destas coisas disparatadas, que nos provocam algum aborrecimento, mas que me fazem agora recordá-lo com muito carinho e alguma saudade.


Tinha a pretensão de ser o nosso padrinho do Caminho. Não tinha como disfarçar os seus defeitos mais prementes, mas não teve também como esconder a grandeza do seu coração, nem como evitar uma sincera homenagem da minha parte. De certa forma, invejo-o. Estará ele neste momento ainda envolvido num outro Caminho, sempre com Compostela na mira.




quinta-feira, 5 de julho de 2007

Madona Mia

Sei dizer que me falaram do local - disso lembro-me bem! Que valia bem a pena o desvio de dois quilómetros. Talvez se tivesse seguido pelo "Perdão" não tivesse ousado visitar a ermita. Teria com toda a certeza, naquela altura em que rompiam as primeiras dores, poupado as minhas pernas desse pequeno sacrifício. Esse era o tempo da contenção das forças. E a "carretera" que me vinha aborrecendo há algum tempo passava mesmo ali ao lado, a escassos metros de Eunate!

Foi com total desinteresse pelo local que entrei na ermita, limitando-me a seguir o gesto dos meus companheiros. Mas ao primeiro sopro do ar fresco do pequeno edifício octogonal rejuvenesci a intuição das coisas místicas e muita da energia que julgava esgotada conheceu ali uma forma natural de se renovar sem esforços maiores.
Ao entrar, os olhos ficam cegos por instantes, tal é a força da luz a que vêm habituados. Os ouvidos quase surdos pelo som dos camiões a raspar no asfalto mal intuem a melodia de um canto sagrado que ecoa levemente no interior das oito paredes. O choque sensitivo é de tal ordem que é como se um encantamento nos tomasse por inteiro. A sensação é a de um esvaziamento instantâneo dos cansaços. Aquela paz interior que quotidianamente reclamamos como justa é-nos ali apresentada como a mais facilitada das dádivas de Deus. Ao fundo, prostrada num humilíssimo altar, a imagem da Madona, o menino ao colo, e todo um convite para permanecer.
Ao ser convocada para retomar o Caminho, em favor das pressas que moviam os meus companheiros, reagi sem o melindre que habitualmente me assusta e afirmei com uma convicção renovada e destemida que fossem indo, que eu por mim queria parar por ali e seguir o meu Caminho por minha conta. Deu-se a despedida. E eu dei comigo novamente sozinha, desta vez sem medo. Com a certeza de que tudo iria correr bem, de ali em diante!
Lá dentro, aos poucos foram-se ganhando os hábitos da escuridão que feria os olhos cheios de luz. E num momento seguinte, a melodia gregoriana fez-se nítida e soante, revigorados que estavam todos os sentidos. Resolvi responder ao convite da Madona, colocado em letras castelhanas à porta do templo. E contei-lhe todos os segredos que naquele instante foi possível invocar da minha consciência desperta. Só aquelas pedras templárias do século XII conservam agora a matriz desses sussurros e dessas culpas, pois eu, em virtude de ser tão negligente nessa matéria, fui-me esquecendo das coisas que para ali disse em surdina: umas eram confissões, outras eram pedidos de rendição. Quando, olhando nos olhos dela, senti que estava perdoada, levantei-me, agradeci e segui o Caminho até onde Deus quisesse. Desta vez, pelo sendeiro tradicional, longe das estradas, dos asfaltos e dos camiões. Até Puente La Reina, onde tudo começou a ganhar um sentido mais consonante com as expectativas que eu tinha criado sobre a aventura compostelana.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Cizur Menor - Parte II

Estava ali então, no limbo da minha existência enquanto peregrina, quando três homens, encapuzados até às orelhas com os "chuvasqueiros" e imensamente encharcados e visivelmente cansados, entraram no bar. Eram o Luis, el Capitan; Lorenzo, o mineiro leonês; Alfonso, cujo olhar intensamente infantil não me inspirou convenientemente de modo a arranjar-lhe um epíteto. Eram todos para cima dos quarenta. Muito bem dispostos e cordiais.
Iam a caminho do Alto, vindos de Zubiri - diziam. Paravam ali um pouco para reabastecer. Seria cerca do meio-dia. Em conversa com a peregrina solitária que lhes falava do mau tempo como se tivesse raízes naquelas terras, resolveram ficar pela tarde, pela noite, selando comigo o compromisso de me acompanharem no dia seguinte até pouco depois de Puente La Reina. Muito perspicazes ao darem-se conta de alguma da minha intranquilidade, fingiam que ficavam por receio das chuvas.


Aos poucos fui também eu reabastecendo o ânimo, à conversa com os meus novos companheiros que a toda a hora riam, contavam "bromas", faziam "xiste", partiam a louça toda em matéria de divertir. Falavam dos que roncavam, dos que não roncavam, das muitas histórias que viveram durante as muitas vezes que fizeram aquele Caminho e outros até Compostela. Enfim, descontraí...


E mais motivos eu teria nesse dia para me sentir relaxada: ao chegar ao albergue, logo que me "cadastrei" com a hospitaleira, ela, ao aperceber-se que era eu a "chica portuguesa", estendeu-me um bilhetinho que alguém tinha deixado por ali.

Peter e Joseph sentiam a minha falta. Intuíram - e muito bem - que eu passaria por ali e arriscaram aquelas parcas palavras sobre a preocupação que a minha ausência lhes provocava. Pediam notícias urgentes por mail. Havia computador e Internet ali mesmo. Não tardei a sossegá-los.

Mas, por muito que quisesse andar da perna para alcançá-los não pude, contudo, impor-me a mim própria um ritmo descabidamente célere - o suficiente que fosse para juntar-me novamente a eles. Eles tinham alguma pressa e eu, que não tinha nenhuma, havia de estar perto de me abandonar completamente às preocupações do tipo "chegar aqui" ou "chegar ali", às "tantas horas" ou "no dia tal". Fomos mantendo contacto, sem no entanto nos reencontrarmos.


Nesse dia conheci também o outro Luis, el Comandante, militar a sério da Força Aérea Espanhola, reformado, bem disposto e com o coração a concorrer com a dimensão do mundo que os seus olhos viram. Do Comandante falarei mais à frente, já que nesse dia as circunstâncias não nos proporcionaram uma ligação muito forte. Confesso até que me irritou ligeiramente o facto de ele ter passado a noite inteira a roncar, sem me deixar pregar o olho ao sono. Seria a primeira de muitas!


Foi também aí que entrou no meu Caminho Giuseppe, nome artístico: Darpan. Eu dava-lhe o nome de Salvador por me fazer lembrar aquela personagem de O Nome da Rosa que mistura tantos idiomas quanto sabe ou se lembra ou pode. Giuseppe é italiano e a língua que utilizava, talvez por temer cometer qualquer tipo de injustiça de ordem cultural - talvez por ser afincadamente comunista - era uma manta de retalhos linguísticos com cores latinas e da Germânia.


E foi ainda nesse noite que não dormi nada: pelos roncos de que já fiz a justa acusação e pelo sentir-me tão confortavelmente instalada entre novos amigos, que a excitação de encontrar-me outra vez rodeada de gente nova trazia-me aquele júbilo que nos tira a vontade de dormir. A alegria de no dia seguinte retomar o Caminho, de cuja estrada eu sentia já falta e alguma saudade...


Teria então a oportunidade de, na manhã seguinte, partilhar literalmente a estrada com o capitão, o mineiro e o homem-menino para quem não arranjei alcunha que servisse. Entendidos que eram no peregrinar a Compostela, lá me convenceram a segui-los por "carretera", improvisando à sorte um desvio pelo Caminho Aragonês de Santiago que por aquelas terras se cruzava com o Francês. Que lá pelos montes havia de estar o terreno cheio de lama, que a descida do "Perdão" era "muy mala per las rodillas", que ía ser mais difícil... enfim! Convenceram-me. E não tardou muito a que me fizessem sentir quase arrependida. Nada agradável caminhar pelo asfalto, a contar cuidadosamente os camiões que passam no sentido diverso a toda a hora, apesar da amabilidade com que os meus companheiros anuíram ao meu pedido quase desesperado para pararmos ao fim de quase três horas de estrada nas pernas. E do mesmo modo respondiam a todos os meus rogos: parar aqui ou parar ali, abrandar um pouco as pressas que me doíam, sinceramente, todos os joelhos... Não deixavam nunca de dar ares de pressa, contudo. E isso pôs-me a pensar que aquele era o Caminho deles e não o meu. Com muita pena minha, fui-me vencendo do melindre, e às portas da Ermita de Santa Maria de Eunate, pedi-lhes que continuassem sem mim, que eu queria ficar-me por ali a contar os meus segredos à misteriosa Madona.

Cizur Menor - Parte I

Pamplona é aquela cidade espanhola das largadas de touros que eu só conhecia de ver na televisão por ocasiões da festa de Santo Isidro, num dos meses quentes. Visitada, assim, de fugida, lembra-me o Porto, com as ruas pequeninas e labirínticas a desembocar em pequenas praças cheias de agitação. Nada em comum entre as duas cidades em termos de organização, movimentação e arquitectura. É o aspecto magro das ruas, uma atmosfera de cores pouco quentes a fugir para a escala dos cinzentos e a sugestão de uma imensidão de segredos escondidos naquelas vielas estreitas... tudo isso me traz uma sensação de raiz, reabilita-me o sentimento do familiar...

Pela manhã, aprecio a teimosia da chuva e dos ventos em não conceder-me a trégua desejada. Procuro no guia o próximo "pueblo": Cizur Menor a cinco mil metros, mal contados pelo autor. Pés ao Caminho! Paragem curiosa na Universidade de Navarra para selar a Credencial. É a primeira vez que me sinto a ser olhada de esguelha, atitude recorrentemente adoptada pelos cidadãos das localidades de maior dimensão pouco sintonizados com o espírito da peregrinação. Quanto a isso nenhum desconforto! Alguma saudade das minhas Letras.

_ "Buenos días, peregrina" - dois senhores da terra cruzam-se comigo à chegada da aldeia, faltam-me uns duzentos metros para atingir o albergue. Nesse dia, tenciono cumprir um dos mais famosos trechos do Caminho: o Alto do Perdão, famoso, não só, pelo seu monumento ao Peregrino, composto por série de estatuetas dispostas em perfil à maneira egípcia, pelo seu admirável e imponente Parque Eólico, mas também, pelo esforço físico que exige ao peregrino, não tanto na subida, mas mais na descida, já que se pronuncia gravemente por entre um número considerável de pedregulhos de tamanho respeitável - dizem! que eu cá não conheci a hora de me redimir por aquelas paragens, segundo o que passo a relatar de seguida.

Aqueles dois homens da aldeia que me interpelavam, trazem consigo a secreta missão e inconsciente de derrubar o meu intuito em prosseguir a estrada incerta. A segurança com que falam sobre as condições atmosféricas é de tal forma convincente que, sem ser preciso pugnar muito com a minha teimosia, convencem-me em três tempos a ficar-me por ali, só por aquele dia, que "mañana" já não está a chover. Mostram-me o albergue e o único bar do sítio.

No bar, onde me refugiei da chuva enquanto aguardava a reabertura do albergue, que por essa ocasião estava encerrado para as limpezas diárias, sentei-me a beber "café com leite grande" e a comer quantos "bocadillos" de presunto com tomate pudesse. Pus-me a escrevinhar umas coisas, contrariando a desinspiração do momento, e senti algum desconforto em estar sozinha, em não ter ninguém com quem partilhar parte da minha angústia. Mariona tinha-me deixado o número do telemóvel. Algumas mensagens trocadas e fui conhecedora de que seguia para o Alto do Perdão. Pela mesma via, mais tarde, o reconhecimento de que eu fiz bem em ficar-me por ali: muita chuva e o terreno lamacento, com a ajuda dos ventos ainda pouco sossegados, tornavam o Alto quase intransponível. Eu reconhecia-lhe a coragem. Mulher madura, da idade da minha mãe, fazia o Caminho - embora não o tivesse assumido, eu confirmei-lhe no silêncio do olhar - por um irmão que a esperava em Compostela.