Naquele dia a mãe levantou-se à hora de sempre. Os três filhos varões seguiram-lhe a rotina maquinalmente. Pouco depois estariam todos reunidos em volta da mesa, cada um reclamando a sua parte do pequeno-almoço. No pequeno casebre situado rés ao chão havia uma rectângulo minúsculo encaixilhado a madeira azul com pretensões de janela. A mãe, depois de saciada a necessidade primeira do dia, afastou uma cortina que perdera a memória da cor imaculada que um dia tivera e deitou os olhos à rua deserta. Viu a neve que caiu durante a noite alcatifou o chão magro da rua com um imenso tapete branco aos flocos. A mão gorda e calejada soltou depois o pano encardido, e lá dentro os filhos nem deram pela oscilação da luz estrangulada pelo gesto. De seguida a boca da mãe sorriu, mostrando uma fileira de dentes grandes, fortes e cintilantes, disse uma série de palavras em árabe cujo entendimento escaparia, de certo, à compreensão do estrangeiro forasteiro que por ali passasse, mas que, seguramente, lhe provocariam um determinado encantamento, pelo exótico que havia naquelas sílabas.
Pela manhã seguir-se-ia, certamente, uma série de rituais de louvações a Alá, Deus no Céu. O mais velho teria, com certeza, um ofício; na ausência do pai cabia a si a responsabilidade de garantir o sustento da casa. Teria saído cedo. Talvez trabalhasse numa obra ali perto. Não! Não seria muito longe porque por volta do meio-dia estaria de regresso para o almoço em família.
Durante toda a manhã a mãe tomaria as providências necessárias para assegurar que aquele dia em nada seria diferente de todos os outros. E por isso repetiu cuidadosamente todos os gestos dos dias anteriores, enquanto os mais pequenotes faziam por não desperdiçar nenhum instante da infância, ora correndo pela casa, ora improvisando as brincadeiras que lhes viesse à cabeça.
Por volta das onze e meia a mãe dirigir-se-ia para a porta que dava directamente para a rua, arrastá-la-ia com a mão que guarda todos os segredos e inspiraria o ar frio da neve que nesse instante denunciava já uma pequena trégua. Nesse dia passariam em frente à sua casa três peregrinos e um cão, fustigados pela neve. Outros já teriam passado ali durante as primeiras horas do dia, que eram iguais às horas dos outros dias. A mãe não o sabia. E se o soubesse, não o estranhava. Porque aquele dia era igual a todos os outros.
Um relógio invisível alertou-a para o aproximar da hora da refeição. Desapareceu no interior da casa e logo regressou para a soleira da porta com um fogareiro que acendeu a carvão. Quando o fogo estava já a modos que se pudesse nele cozinhar, trouxe um alguidar com espetos de alumínio cheios de pedaços de carne de borrego e pôs-se a castigá-los ao lume. A neve voltaria em poucos instantes, mas mais sossegada, mais solitária; tinha conseguido descartar-se da ira das ventanias.
Com a única preocupação de assegurar que aquele dia em tudo seria diferente de todos os outros, durante cerca de hora e meia, três peregrinos e um cão caminharam aos custos desde Arroyo San Bol até à pequena localidade de Hontanas. O andamento fluído das pernas viu-se gravemente afectado pela neve que ficava quase pelos joelhos. Para dramatizar um pouco mais a situação, o vento dava de frente para eles, fustigando-lhes o rosto com bolas de gelo arremessadas com ira, que mais parecia que estavam sendo castigados por uma vontade invisível; de maneira que caminharam largo tempo com a cara voltada para o lado, sacrificando apenas uma das faces. O andar assim enviesado, a densa camada de nevoeiro, os olhos que forçosamente se cerravam para que não fossem mutilados pelo gelo acutilante, tudo isso lhes dava a sensação de um caminho percorrido às cegas, apenas socorrido por uma aguçada, mas ainda delicada, intuição.
Hontanas desvendou-se de repente, rasgando o denso manto do nevoeiro que a impedida de ser vista do alto da colina. Felizes por avistarem um porto seguro ao seu alcance, os peregrinos correram na busca de um estabelecimento qualquer que estivesse aberto e onde pudessem recompor-se. Pareceu-lhes que o temporal amainara a sua fúria, mas tratava-se simplesmente do abrigo naturalmente fornecido pelo pequeno pueblo, que se situa no fundo de um vale pronunciado, onde os ventos raramente descem. Em Hontanas havia apenas um estabelecimento aberto e que era ao mesmo tempo café e albergue de peregrinos. Logo, logo foi encontrado, a meio daquela que parecia ser a rua principal, senão a única, da pequena aldeia.
Chegados à porta que estava aberta, deram com uma mulher de lenço na cabeça, vassoura descabelada na mão e com aquele ar que faz com que as pessoas pareçam que já nasceram com oitenta anos. Gritou que o bar estava fechado, que era a hora das limpezas e que se quisessem comer que esperassem lá fora, que não ía permitir que entrassem porque lhe estragavam a fascina toda. Ah, e foi muito clara quando rematou, gritando também, que "o cão nem pensar".
A Lola, como que adivinhando que mais uma vez teria de ficar abandonada ao ostracismo da rua, enquanto nós nos regalávamos com o quentinho e com o que houvesse para comer, olhou para nós com aqueles olhos tristes que só os cães sabem fazer e foi como se nos pedisse que fôssemos ao encontro de outro sítio. Ao lado, metido numa viela estreita, estava um outro bar fechado, onde, depois muito de insistirmos no batente da porta, a empregada cubana nos deixou entrar, às escondidas da patroa. Deixou-nos entrar o cão e fez sinais de pouco se importar com o estado em que lhe deixámos a casa. Uns bons quilos de neve foram ali depositados e depois de derretida no chão, a neve não parece mais aquela coisa linda que é enquanto manto que cobre os montes e os telhados de tons imaculados.
Com a fome saciada apenas a café com leite quente, mas já mais recompostos, retomámos o nosso trajecto em direcção a Castrojeriz. Mas quase, quase a sair de Hontanas, o Caminho de Santiago presenteou-nos com uma das maiores maravilhas de toda a viagem. Ao fundo da rua que abandona o "pueblo" estava uma mulher com ares de marroquina a preparar um delicioso barbecue na soleira da porta. Ainda que continuasse, a neve não parecia incomodá-la em nada do que fazia. Abanava o lume para manter as chamas atiçadas sem deixar que fogo lhes pegasse demasiado, enquanto os espetos cheios de carne eram, de tempo em tempo, balouçados de um lado para o outro de forma a ficarem bem tostadinhos. Era um perfume a comidinha, que nem é bom pensar nele ou tentar imaginá-lo, que logo a boca se nos enche de água e o estômago de cócegas. Assim nos viu, assim nos estendeu três espetadas da sua carne. E fazia-o como que respirasse, com a mesma atitude com que aceita a cadência sempre acertada do seu coração, como se aquilo fizesse parte dos seus rituais diárias, como se aquele gesto fosse, enfim, mais uma maneira de garantir que os dias são todos iguais uns aos outros. Logo, logo, surgiram três rapazes excitados com a nossa imediata agitação, incrédulos que estávamos com a aquela dádiva maravilhosa. E o mais velho deles depressa trouxe até nós um tabuleiro com três copos de chã quente de hortelã-pimenta. Aquele que tinha ares de ser o mais novito encarregou-se do pão. Obviamente não tivemos como recusar aquele manjar, nem como fazer a cerimónia costumeira do "não quero, muito obrigado; não precisa de incomodar-se". Recusar aquilo seria mais do que uma grave ofensa para com os nossos estômagos encolhidos, resultaria no maior dos insultos, tal foi a naturalidade com que aquela mulher se ofereceu para nos matar as necessidades mais visíveis e que não tinham como ser encobertas, pois ali era só corações escancarados.
Pela manhã seguir-se-ia, certamente, uma série de rituais de louvações a Alá, Deus no Céu. O mais velho teria, com certeza, um ofício; na ausência do pai cabia a si a responsabilidade de garantir o sustento da casa. Teria saído cedo. Talvez trabalhasse numa obra ali perto. Não! Não seria muito longe porque por volta do meio-dia estaria de regresso para o almoço em família.
Durante toda a manhã a mãe tomaria as providências necessárias para assegurar que aquele dia em nada seria diferente de todos os outros. E por isso repetiu cuidadosamente todos os gestos dos dias anteriores, enquanto os mais pequenotes faziam por não desperdiçar nenhum instante da infância, ora correndo pela casa, ora improvisando as brincadeiras que lhes viesse à cabeça.
Por volta das onze e meia a mãe dirigir-se-ia para a porta que dava directamente para a rua, arrastá-la-ia com a mão que guarda todos os segredos e inspiraria o ar frio da neve que nesse instante denunciava já uma pequena trégua. Nesse dia passariam em frente à sua casa três peregrinos e um cão, fustigados pela neve. Outros já teriam passado ali durante as primeiras horas do dia, que eram iguais às horas dos outros dias. A mãe não o sabia. E se o soubesse, não o estranhava. Porque aquele dia era igual a todos os outros.
Um relógio invisível alertou-a para o aproximar da hora da refeição. Desapareceu no interior da casa e logo regressou para a soleira da porta com um fogareiro que acendeu a carvão. Quando o fogo estava já a modos que se pudesse nele cozinhar, trouxe um alguidar com espetos de alumínio cheios de pedaços de carne de borrego e pôs-se a castigá-los ao lume. A neve voltaria em poucos instantes, mas mais sossegada, mais solitária; tinha conseguido descartar-se da ira das ventanias.
Com a única preocupação de assegurar que aquele dia em tudo seria diferente de todos os outros, durante cerca de hora e meia, três peregrinos e um cão caminharam aos custos desde Arroyo San Bol até à pequena localidade de Hontanas. O andamento fluído das pernas viu-se gravemente afectado pela neve que ficava quase pelos joelhos. Para dramatizar um pouco mais a situação, o vento dava de frente para eles, fustigando-lhes o rosto com bolas de gelo arremessadas com ira, que mais parecia que estavam sendo castigados por uma vontade invisível; de maneira que caminharam largo tempo com a cara voltada para o lado, sacrificando apenas uma das faces. O andar assim enviesado, a densa camada de nevoeiro, os olhos que forçosamente se cerravam para que não fossem mutilados pelo gelo acutilante, tudo isso lhes dava a sensação de um caminho percorrido às cegas, apenas socorrido por uma aguçada, mas ainda delicada, intuição.
Hontanas desvendou-se de repente, rasgando o denso manto do nevoeiro que a impedida de ser vista do alto da colina. Felizes por avistarem um porto seguro ao seu alcance, os peregrinos correram na busca de um estabelecimento qualquer que estivesse aberto e onde pudessem recompor-se. Pareceu-lhes que o temporal amainara a sua fúria, mas tratava-se simplesmente do abrigo naturalmente fornecido pelo pequeno pueblo, que se situa no fundo de um vale pronunciado, onde os ventos raramente descem. Em Hontanas havia apenas um estabelecimento aberto e que era ao mesmo tempo café e albergue de peregrinos. Logo, logo foi encontrado, a meio daquela que parecia ser a rua principal, senão a única, da pequena aldeia.
Chegados à porta que estava aberta, deram com uma mulher de lenço na cabeça, vassoura descabelada na mão e com aquele ar que faz com que as pessoas pareçam que já nasceram com oitenta anos. Gritou que o bar estava fechado, que era a hora das limpezas e que se quisessem comer que esperassem lá fora, que não ía permitir que entrassem porque lhe estragavam a fascina toda. Ah, e foi muito clara quando rematou, gritando também, que "o cão nem pensar".
A Lola, como que adivinhando que mais uma vez teria de ficar abandonada ao ostracismo da rua, enquanto nós nos regalávamos com o quentinho e com o que houvesse para comer, olhou para nós com aqueles olhos tristes que só os cães sabem fazer e foi como se nos pedisse que fôssemos ao encontro de outro sítio. Ao lado, metido numa viela estreita, estava um outro bar fechado, onde, depois muito de insistirmos no batente da porta, a empregada cubana nos deixou entrar, às escondidas da patroa. Deixou-nos entrar o cão e fez sinais de pouco se importar com o estado em que lhe deixámos a casa. Uns bons quilos de neve foram ali depositados e depois de derretida no chão, a neve não parece mais aquela coisa linda que é enquanto manto que cobre os montes e os telhados de tons imaculados.
Com a fome saciada apenas a café com leite quente, mas já mais recompostos, retomámos o nosso trajecto em direcção a Castrojeriz. Mas quase, quase a sair de Hontanas, o Caminho de Santiago presenteou-nos com uma das maiores maravilhas de toda a viagem. Ao fundo da rua que abandona o "pueblo" estava uma mulher com ares de marroquina a preparar um delicioso barbecue na soleira da porta. Ainda que continuasse, a neve não parecia incomodá-la em nada do que fazia. Abanava o lume para manter as chamas atiçadas sem deixar que fogo lhes pegasse demasiado, enquanto os espetos cheios de carne eram, de tempo em tempo, balouçados de um lado para o outro de forma a ficarem bem tostadinhos. Era um perfume a comidinha, que nem é bom pensar nele ou tentar imaginá-lo, que logo a boca se nos enche de água e o estômago de cócegas. Assim nos viu, assim nos estendeu três espetadas da sua carne. E fazia-o como que respirasse, com a mesma atitude com que aceita a cadência sempre acertada do seu coração, como se aquilo fizesse parte dos seus rituais diárias, como se aquele gesto fosse, enfim, mais uma maneira de garantir que os dias são todos iguais uns aos outros. Logo, logo, surgiram três rapazes excitados com a nossa imediata agitação, incrédulos que estávamos com a aquela dádiva maravilhosa. E o mais velho deles depressa trouxe até nós um tabuleiro com três copos de chã quente de hortelã-pimenta. Aquele que tinha ares de ser o mais novito encarregou-se do pão. Obviamente não tivemos como recusar aquele manjar, nem como fazer a cerimónia costumeira do "não quero, muito obrigado; não precisa de incomodar-se". Recusar aquilo seria mais do que uma grave ofensa para com os nossos estômagos encolhidos, resultaria no maior dos insultos, tal foi a naturalidade com que aquela mulher se ofereceu para nos matar as necessidades mais visíveis e que não tinham como ser encobertas, pois ali era só corações escancarados.
Aquela mulher não sabia uma palavra de nenhum dos idiomas que nós tínhamos como possíveis. Nem nós sabíamos o seu, ainda que tivéssemos feito algum esforço para comunicar com ela através de palavras. Mas ela sabia muito mais do qualquer um de nós dos idiomas em que se entendem os corações genuínos, que é só abrir o coração daquela forma e já está... Não soube o nome dela. E como insisto nesta teimosia de dar nomes a todas as coisas e a todas as pessoas de forma a ter como invocá-los para não esquecê-los, insisto em chamar-lhe mãe.
Agradecemos, seguindo a nossa marcha, e a Lola ainda para lá ficou a admirar a mãe. Imaginei que partilhava connosco tão simplesmente o espanto maravilhoso que a cena provocava, mas na verdade era a ver se lhe calhava alguma coisa a ela também... E aquele dia foi para uns e para outros igual e diferente de todos os outros. E a ordem das coisas afinou-se mais uma vez.