O meu Caminho para Santiago
sábado, 18 de agosto de 2007
General Franco - o peregrino de Jerusalém
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Saudades
Imagine-se um grupo de pessoas. Um país diferente é representado por cada uma delas. As línguas maternas são diversas também. Novidades acontecem em cada um dos instantes que compõem essa fina teia de encontros e aproximações. Inicialmente, preside a sensação das diferenças. O primeiro contacto é sempre caracterizado por uma negociação linguística, onde se tem em vista o estabelecimento de um código comum. Depois lá vem outro companheiro que não fala Espanhol ou outro que pouco sabe Inglês e a retoma das negociações deste género é uma constante durante quase todo o percurso. E se em Roma és Romano, então em Espanha és Espanhol, e a língua de nuestros irmanos foi a grande vencedora do grande torneiro dos idiomas. De vez em quando lá aparece um alemão que, na língua castelhana, só conhece as palavras para dizer vinho, cerveja e sande de presunto com tomate; ou um estónio que aprendeu apenas como se dizem os piropos para chamar a atenção das chicas guapas; e nesses casos Roma cede o palco à Germânia que se faz representar pelo Inglês, que em terras de Espanha é tido como um dialecto rudimentar de gente ou muito culta ou muito bárbara, já que os espanhóis acreditam, à semelhança dos alemães, na superioridade da raça linguística que representam. A coisa parece ser desconfortável, sugerindo, talvez, uma grande dificuldade em comunicar, quando num grupo coeso de peregrinos surge um espanhol que não fala Inglês e, ao mesmo tempo, um alemão que não fala a língua de Castela. Nesse aspecto, senti-me muito portuguesa e arrisquei tudo o quanto fosse idioma que tinha prendido na escola ou na vida e por isso, Inglês, Francês, Italiano e uma língua indefinível que no começo nomeei de Portunhol, mas que no final se havia transformado e aproximado do Espanhol. Atrevi-me até a um pouco de Alemão. Aprendi algumas palavras em todas línguas presentes e, durante algum tempo, os albergues acordavam com a minha voz a declinar os bons dias em todos os idiomas possíveis.
Mas, dizia eu, a coisa poderia parecer complicada. O extremo zelo de uns e a absoluta indiferença de outros podia, de algum modo, supor a instalação de um ruído provocador no seio da comunicação. Mas não foi. A determinada altura a Perla dizia-me que tinha a sensação de um idioma comum, que nunca houvera sentido a ameaça das diferenças evidentes. E era verdade. Mesmo quando o assunto era melindroso e abstracto, a comunicação fluía, derrubando as barreiras históricas e culturais mais persistentes. O peregrino depressa aprende a dar-se a entender aproveitando-se dos silêncios das palavras quando estas se calam por se faltarem a si próprias. O lugar comum mais recorrente é aquele que ocupa o lugar da velha máxima Um olhar vale mais do que mil palavras. E isto acontecia não porque se sentisse o pesadelo das diferenças mas, muito pelo contrário, porque o ambiente envolvente motivava o nosso investimento nas afinidades. Essa aproximação era promovida pela subtileza dos gestos, naturalmente alimentada por características humanas essenciais. Poupados nas palavras, éramos todos extremamente generosos na forma de abrir o coração.
Isto tudo veio a propósito das coisas raras que acontecem durante o Caminho, que em nada se assemelham às coisas do dia-a-dia. De repente assalta-me uma recordação e eu fico para aqui saudosa a recordar. E tenho ainda a memória tão fresca que não há um dia em que eu não demore algum do meu tempo num estranho exercício de saudade. Foram dias mágicos esses! Tal era a constância da novidade que, no mesmo dia e num curto espaço de tempo, surpreendi dois dos meus amigos a usarem a expressão vida real para se referirem aos seus quotidianos. Na vida real eu costumo ser mais tímido – dizia um deles. Eu argumentava: Mas isto é a vida real; E respondiam-me: Pois é, mas não é bem a mesma coisa, não é bem a mesma coisa.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Calzadilla de la Cueza - o milagre das botas
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Jean Leloup

O Caminho certo por linhas tortas
Era o Caminho de Villar de Manzarife desde Léon. Eu vinha ladeando Juan Lulu. Atrás de nós Pierre e Kiko conversavam a uns quinhentos metros. Trazia, como quase sempre, a música nos ouvidos. E de repente pareceu-me ouvir um sussurro vindo das moitas. Tirei os "phones" para escutar atentamente. Não havia nada. Voltei a pôr a música, mas o sussurro voltou, mesclou-se com a música e tornou-se insuportável. De maneira que resolvi desligar a música de vez. Abri a bolsa que trazia à cinta para guardar o Ipod e dei-me conta de uma luzinha que piscava. Era o telemóvel, uma chamada de Portugal de um número desconhecido. Resolvi atender. Momentos depois, os meus companheiros viram-me dar pulos de alegria. Durante alguns minutos dancei descoordenadamente no ar, por causa da euforia. Tinham-me oferecido trabalho na mesma empresa onde estive antes de partir para o Caminho. A coisa era mais estável desta vez. Fiz os cálculos de quanto iria ganhar e imaginei uma casa e uma vida novas. Nesse sonho, abri a porta da minha casa nova aos meus amigos peregrinos e todos participávamos numa festa descontraída de boas-vindas que eu lhes tinha preparado. Mostrei-lhes a minha vida feliz, despreocupada e relaxada. Tão pouco me importava que não tivesse seguido a minha inclinação profissional do início. O que realmente era significativo era aquele reunião ilusória, a eternidade daquele momento forjado pela imaginação que se entranhava nos meus sonhos para os cristalizar. E a forma como tudo tinha acontecido, a história do sussurro, o facto de eu nunca atender o telemóvel enquanto caminhava... tudo isso me fez pensar que aquela oferta de trabalho era um "regalo" do Caminho, um dos seus imperiosos desígnios ao qual não podia desobedecer.
Eu imaginei que o Caminho era uma linha recta; sublime, perfeita, de contornos definidos, sem atalhos ou desvios; um traço cavado a fundo na terra a régua e esquadro. E intuí que essa terra era sempre a mesma, igual a si própria do início ao fim do percurso, sempre fresca e húmida; e que quando eu a apertasse nas minhas mãos, dela se libertaria aquela fragrância que só existe nas entranhas da terra. E pensei no cheiro da humidade a espalhar-se pelo ar, a contagiar cada ramo, cada pedra, a fazer brotar cada flor que dormisse a timidez da Primavera ainda virgem, a viajar até aos pulmões de toda a gente e a desbloquear as suas deficiências de apetite, a contribuir preciosamente para calibração da ordem perfeita das coisas...
Essa linha firme, cuja inspiração eu fui buscar aos mapas, atravessaria os montes, percorreria os vales, ascenderia nas baixadas perigosas, mas nunca o seu sentido de direcção viria a ser interrompido por uma curva desagradável que desviasse ora aqui à esquerda, ora ali à direita. E essa especulação orientativa simplificou-me o processo dos medos, atribuiu-me ilusões necessárias, deu-me a crença de um Caminho longo e o sabor do eterno.
Do peso que inevitavelmente tinha de transportar comigo, descartei a preocupação das direcções e dos sentidos físicos, de maneira que ficasse apenas a mochila e as culpas a destilar. Era seguir em frente e... já está! O Oeste seria sempre o espelho dos meus olhos, o Norte a mão direita que corrige, o Sul a mão esquerda dos caminhos transviados , o Este o fardo das culpas e dos enganos. No final dessa linha a Catedral. E antecipei o júbilo que sentiria quando a avistasse. Nesse sonho, o Gozo era um monte árido nas alturas, solitário como um eremita e impaciente como uma criança. Calculei a mudança de mim própria depois do Caminho. Tornar-me-ía na pessoa mais afinada do Universo de pessoas que conheço: calma, justa, equilibrada, benevolente e determinada.
Depois foi a linha impecavelmente imperfeita, numerosos e extraordinários atalhos, o desbravar de uma curva sem sentido aparente que abre a porta a um admirável mundo novo para explorar. O Gozo era uma cidade turística, cheia de gente a ziguezaguear de um lado para o outro. E não houve nenhuma novidade na emoção de chegar a Santiago. Ao peso do regresso a casa, juntava-se a inquietação provocada por aquela decisão profissional. Aparentemente, descartava-se o projecto inicial. A sua concretização tinha sido absolutamente substituída pelo prazer da segurança e do bem-estar financeiro. O dia-a-dia no Porto prolongou-me durante algum tempo a sensação do Caminho. O regresso ao mundo inóspito do trabalho numa empresa em crescimento e onde a competição acesa põe a nu as qualidades mais aborrecidas do ser humano trouxe até mim uma certa ira que aos poucos se foi transformando numa genica necessária. O desassossego continuou, cresceu e ganhou voz, até que eu percebesse que não havia nada no mundo que pudesse compensar o vazio que fica com o abandono de um projecto muito desejado, sem que antes houvesse sequer uma tentativa que fosse para o praticar.
Pensei muito e muitas vezes naquela pergunta do Pierre. E mesmo ele, já de volta a casa, escreveu-me várias vezes a sondar em torno daquela questão. Decidi, enfim, pôr termo à inquietação. Não podia, depois de ter percorrido a Península, devolver-me a uma vida de incertezas e contradições. E então, sem que ele voltasse a perguntar-me o que fosse, decidi responder-lhe - que mais o fazia para mim própria do que para ele. Hoje estou novamente a cem por cento envolvida na minha ambição primeira. E a sensação não tem peso nem medida tangíveis.
O Caminho não era a linha perfeita que eu imaginava inocentemente, mas mostrou-me as coisas maravilhosas que se escondem na frágil hesitação de um atalho.