O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Santiago, o Senhor dos meus passos.

Incrivelmente, no meio de tanta história que até aqui contei, nunca nomeei o Santo. Aquele que seria, por certo, o guru dos meus passos, o guia do meu Caminho nunca aqui encontrou o seu espaço, a não ser no momento em que muito levemente referi o cumprimento do ritual do abraço como se de coisa banal se tratasse.
Incrivelmente, houve histórias do Caminho que trouxeram até mim uma fé que nunca eu houvera, jamais em tempo algum, experimentado. Nem nos dias em que me lembro de ter tido fé quando era uma inocente pupila dos catequistas! Nem nas manhãs de domingo da adolescência em que, por um impulso que nunca soube explicar muito bem, acordava cedo para ir à missa e até me esforçava para "tomar o Senhor" de estômago vazio, embora, na prática, não conseguisse vencer o voraz apetite matinal que me caracteriza desde que vim ao mundo.
Santiago deu-me aquilo que todos os seres com preocupações da ordem espiritual mais almejam: uma fé gratuita, sem os habituais sacrifícios do espírito que resultam da tensão declarada entre as mais célebres faculdades humanas: o pensar e o sentir! Foi-me dada, talvez ao acaso, um fé confirmada em si própria e que, incrivelmente, nunca, desde que a sinto aqui dentro de mim, nunca colidiu com o harmonioso equilíbrio racional que às vezes consigo ter e pelo qual sempre me esforço. Sempre que posso!
Sinto-me, evidentemente, uma privilegiada! Mas só agora consigo medir o meu egoísmo. É que nunca encarei isso como uma dádiva merecedora de agradecimento diário, de uma pequena oração, ainda que dita às pressas nos momentos que antecedem o descanso nocturno, ainda que fosse criada por mim nos meandros de um improvisado sentimento de gratidão. E então, essa fé que eu aprendi foi remetida assim para uma daquelas gavetas onde normalmente se guardam as inutilidades que, sabemos, deixarão de o ser assim que começarmos a sentir a sua necessidade e a sua falta.
Santiago continua aqui, a fé que tenho nele também: intacta e pura como no primeiro dia! Mas não lhe consigo mexer, não sei como manipulá-la agora que preciso dela mais do que qualquer outra coisa. É estar de mãos atadas!•
Invoco-o, chamo por ele, peço-lhe que me alivie o outro peso que trago agora nas costas. Ele olha para mim e não diz nada, não faz nada, os olhos brilham-lhe misteriosamente como se me quisesse ensinar a única coisa que eu não soube aprender no Caminho que fiz até si. E num pequeno instante da minha insignificante existência consigo descodificar a mensagem... e aqui estou eu a fazer o que ele me exige para que possa, enfim, redimir-me da minha culpa e continuar o caminho que faço agora mais leve da alma.•
Fernando Pessoa diz, algures, num dos seus poemas "Para ser grande, sê inteiro". Santiago substitui-lhe apenas uma palavra e diz-me a única coisa que o fingidor certamente não diria: "Para ser grande, sê tu própria". E eu rendo-me, por fim, à urgência de ir lá atrás, ao momento em que me recordo de ter tido o último fingimento, enquanto ele não se me vai da memória para os confins do inconsciente atazanar-me a vida sem razão. E confesso-me...

Estou aqui, então, para confessar que houve um momento em que eu não fui igual a mim nessa rota que percorri caminhando até ao santo sepulcro. Melhor, há dois momentos precisos, concretos, frescos ainda na memória, na minha e, certamente, na daqueles que os testemunharam incrédulos. E dizem ambos respeito aos passos de que é Senhor o meu Santiago. Mais precisamente aos passos que não foram dados, aos passos que eu falhei por me sentir demasiado cansada e por me ter faltado a raça para dobrar o Bojador. Foram os que vão de Ponferrada a Villa Franca del Berzo e os que vão de Arzúa a Portomarin. No primeiro caso meti-me num autocarro, no segundo num táxi. E só o Santo sabe agora o peso que me dá a culpa desse chão não pisado pelos meus pés. Só eu sei, agora, a dimensão da culpa do meu comprometido silêncio perante as honras que me fizeram a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, os meus amigos todos, todos orgulhos dos oitocentos e tal quilómetros que trago nas pernas. E ocultar-lhes isso, desde que cheguei, é já revelador da culpa que senti desde o início. E a culpa, quando é ignorada é como uma era daninha e cresce sem se saber que cresce e quando damos por ela estamos presos na nossa própria armadilha, cuja única solução passa por queimar raízes. E agora, tenham todos muita paciência que eu não sou perfeita e nunca vou aprender a sê-lo! E perdoem-me se, mais uma vez, o meu egoísmo vem sobrepor-se a tudo mostrando a natureza crua daquilo que realmente eu sou. Ao menos este é genuíno!

São esses os passos que faltam agora para poder continuar...

domingo, 11 de novembro de 2007

Do teu nome

Não me importa não ter a tua força, desde que tenha o teu sangue a sossegar-me as veias nervosas e a equilibrar-me o desassossego do coração. Que tenha sempre a tua voz a definir-se na confusão dos ruídos efémeros e inúteis que a vida nos dá só para não nos dar descanso. Que tenha sempre o exemplo do teu passo certo para que com ele possa acertar o meu; e que, quando foi menos certo, tenha sido para mostrar-me que a vida não é só esticar o braço e colher, por sorte, o fruto mais doce e suculento que havia na árvore.


Não me importa o que me dizem os ignorantes acerca dos teus silêncios. Pois é por eles que hoje, felizmente, sei bater destemidamente as asas e sei escolher rumos e sei traçar rotas e caminhos e sei onde guardei a reserva das forças e sei ir até ao fim para ver onde fica o fim e aprendo que não fica em lado nenhum porque tudo continua.


Não me importa que, de algum modo, te tenha magoado a ti, que me tenhas magoado a mim, porque a magnitude do teu ser, a tua força em mim, me ensinou que não há virtude alguma que supere a capacidade de aprender com os desenganos.


Não me importa não caber no teu mundo prático porque sei que o espaço da tua vida é tão infinito como o espaço da minha e que o nosso lugar nas vidas um do outro está acima das questões práticas e aborrecidas com que, por força do que tem de ser, temos de lidar diariamente porque Deus assim quis e não quis que fosse de outra forma.


Não me importa não saber todos os nomes bonitos de todos os idiomas que há no mundo para poder definir a natureza daquilo que és para mim. O único nome que aprendi de ti, aquele que me ensinaste, o único de que sou capaz, tem em si todas as palavras bonitas do mundo, de todas as línguas que houve no mundo todo, das que ainda vai haver neste mundo e no outro. Porque há só uma palavra necessária para te chamar a mim e é a mesma que serve para chamar o Universo inteiro, pai...