O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

O lado obscuro do caminho ( El Acebo, 31 de março)


Faço o caminho porquê?

Encontrar o verdadeiro motivo do Caminho é também uma das razões que me leva a percorrê-lo. Não há nenhuma doença por curar, nem promessa por cumprir, julgo eu! Não há um laço emotivo que me ligue particularmente a Santiago. Não existe nenhuma dúvida mais urgente por resolver. Apenas e tão somente o gozo da caminhada, a vontade de liberdade, a urgência da transpiração. E tudo isto eu consigo saber à superfície. Aparentemente sou uma pessoa razoável, equilibrada, sem qualquer tipo de carência espirutual... Tenho saúde e uma série de outras qualidades que são tidas como fundamentais para que a vida nos corra bem!
Mas há um lado obscuro nesta minha decisão que se tem vindo a impôr a cada instante. É como se, ao fazer-me peregrina, eu estivesse a seguir um propósito bem mais urgente do que uma simples aventura para variar as rotinas. E isso conduz-me. Por enquanto pela berma de uma estrada perfeita, sem lugar para grandes atropelos e agitações. Julgo que fui eu que criei esse espaço acolhedor, e enquanto a vida acontece no meio dessa estrada, eu vou caminhando ao lado, olhando em frente, buscando com os olhos cegos de horizonte, o justo sentido das coisas. E agora é como se tivesse perdido o controlo nessa conquista. E é como se os meus pés começacem agora a caminhar em obediência ao chão por baixo deles. Não sei o que comanda este desígnio, mas sei que se trata do lado obscuro do meu caminho.

E agora que não posso voltar atrás, não só porque de facto não o quero fazer, mas também e, sobretudo, porque sinto que acabo de entrar numa estrada que se conduz a si própria e da qual só é possível sair quando já não houver chão para caminhar... E aqui é que reside toda a graça da peregrinação. É que ela antecede o peregrino, em hierarquia, em existência e em vontade.

A estrada chama, o peregrino obedece! A razão talvez venha depois!

sábado, 27 de janeiro de 2007

Deitando fora os desperdícios... E afinando o espírito... ("Mim", Cruz de Ferro, 31 de março)


Tenho vindo a recolher algumas informações sobre o Caminho. Há um site, o www.jacobeo.net que contém muita informação detalhada. Aí existe também uma espécie de fórum, um ponto de encontro entre peregrinos que já fizeram ou anseiam fazer o Caminho de Santiago. É só clicar em "tablón de mensajes". Impressiona-me a ideia positiva que todos os peregrinos têm sobre esta empresa. E a forma como respondem a quem, por desconhecimento prático, coloca as suas dúvidas é, deveras, fantástica.
Nesta semana que passou, li a mensagem de uma rapariga que tem um cancro e que vê no Caminho uma via para a cura. A mensagem intitula-se "con mi cancer a Santiago" e Marian parece estar muito optimista. Pergunta se há alguém na mesma situação. E compromete-se com o Apóstolo, por enquanto cumprindo um quarto tratamento de quimioterapia e para o próximo mês de Agosto, fazendo a sua peregrinação.
Apesar de curta, a mensagem de Marian é emocionante. Logo desencadeia uma série de respostas de outros peregrinos que a encorajam e lhe dão o ânimo necessário.
Não é a primeira vez que sei de histórias deste género. No sábado passado, li num blog de um peregrino (uma espécie de diário da sua caminhada desde Saint Jean Pied de Port até Santiago de Compostela), a história de um homem que venceu um cancro só com a esperança que depositou no Caminho. Sofria de um cancros nos pulmões e, estando ele às portas da morte, já recebendo a extrema-unção, pediu a Deus que só lhe desse forças para fazer o Caminho. Ou Deus ou o Apóstolo ou a fé que fervia na vontade que aquele homem tinha em cumprir o Caminho... o certo é que ele sobreviveu à doença de uma forma inesperada, fez o Caminho e superou-se. Bem diz o ditado que a fé move montanhas... (http://ultreyaa.blogspot.com/)

No meu caso, felizmente, e na maioria das histórias verídicas que tenho ouvido, o Caminho prende-se mais com a necessidade de um redescobrimento de nós próprios. Trata-se de uma espécie de purgatório, um leve exercício de catarse que nos colocará diante daquilo que mais tememos. Creio que é sobretudo isso. Sozinhos, no Caminho, sem conhecer ninguém, perante as nossas limitações mais inflexíveis, seremos forçados a vencê-las. Não haverá nada a que recorrer de forma a enganarmos a consciência: nem trabalho, nem vícios, nem virtudes pouco modestas. Ali, creio, há somente, o passo acertando-se ao caminho... os ponteiros da nossa vida a afinarem-se com os nossos sonhos mais sinceros.

Hoje houve por aqui um exercício brando de preparação... Quando estamos cheios até à alma, há que arrumar armários e deitar fora desperdícios. Roupa velha, computadores antigos, coisas já quase sem nome... Deitar fora tudo aquilo que atrapalha e que em nada aproveita a nossa vida... É ver o corpo mexer-se e deixar que alma siga o mesmo gesto... Há que escolher o que fica, o que vai, saber o que fará falta, o que fará ainda mais pó. No meio de tantas caixas de louças e roupas, sacos cheios de papéis, bolas vazias, cadeiras de praia e guarda-sóis enferrujados... ferramentas, utensílios diversos, coisas várias que representam tudo aquilo que o espírito acumula e de que nunca se serve, a não ser para lhe sentir o peso cruel... No meio daquilo tudo, vi a minha mochila de muitos litros e o meu saco-cama azul e deu-me vontade de colocá-los já à mão. Uma súbita vontade de ir já hoje. Depois amansei-me e pensei que o caminho só terá o seu sentido cumprido se for feito pelo gozo da caminhada, concentrado apenas no facto de se sentir cada pormenor, doloroso ou não, da afinação de cada passo, sem pressas de começar coisa nenhuma nem de chegar a lado algum...

domingo, 21 de janeiro de 2007

Caminho do Interior


O caminho hoje faz-se sinuoso, por estradas que conduzem aos mistérios do coração. Trata-se de um exercício habitual, mas ainda assim marcado por gestos desajeitados e pouco práticos, típicos de um iniciante.Por essa estrada fora há duas sensações que se destacam: o medo e a saudade.
É domingo, o despertar arrasta-se pela tarde cinzenta. Na televisão, um programa do National Geographic põe a nu alguns dos mistérios do vulcão do monte Vesúvio; Pompeia e Herculano redescobrem-se. O tempo recua e faz-nos adivinhar, com uma estranha nostalgia, os tempos do Império da Grande Roma.
É o suficiente para sentir que dentro de mim também se escondem realidades remotas, cuja acção do tempo camuflou em imagens convencionais...recordações. E há também um Vesúvio pequenino que dorme quentinho e que pede para não ser perturbado. O tempo pede para não ser perturbado. A seu tempo as coisas acontecem. Aqui e agora é algo que não posso decidir.
Ou então partiria hoje mesmo... Chovesse ou nevasse... Pois a minha vontade afasta-me constantemente destes ritos de século XXI e faz-me sentir uma tranquilidade efémera ao subir o cume de uma montanha.
O caminho do interior acaba por mostrar-me que é preciso vencer uma ansiedade latente... Caminhar e não correr... não ter pressa de chegar a lugar algum...
Tenho medo do que dirão algumas pessoas que amo quando souberem... Sei que afirmarei com a mais firme das convicções: "quero fazer o caminho". Sei o que dirão de seguida, que sou completamente louca, que não sei no que me vou meter, que não devia ir sozinha, que pode ser perigoso, que se pudessem até iam comigo... Outros irão aplaudir a minha decisão. O certo é que ainda não é o "aqui e a agora" desta comunicação. Há prioridades. E esta não está no topo da lista.
Não me apetece nada o dia de amanhã, voltar para um trabalho que me cansou o gosto e o entusiasmo. Estarei à mercê de centenas de pessoas que irão alimentar-se do meu bom humor, do meu bom estado de espírito com o objectivo preciso de me tornarem semelhantes a si: secas, mirradas, mortas por dentro. Tenho de descobrir uma forma de inverter essa tendência ou então será insuportável.
Por enquanto estarei por aqui, a fazer o caminho do interior... à procura da melhor forma de me preparar para o caminho, a construir o meu estatuto de peregrina, a separar os víveres que levarei comigo na mochila dos desperdícios que não irão fazer falta nenhuma... É aqui que começo, então!

sábado, 20 de janeiro de 2007

O Bom Caminho



No ano de 2004, em Dezembro, fui pela primeira e única vez visitar a Catedral de Santiago em Compostela, na vizinha Galiza. O motivo era tão válido como outro qualquer. Poderia ter sido outro e eu teria sentido a mesma alegria que senti naquele dia.
Anos antes, uma pessoa muito importante para mim falou-me no Apóstolo. Ele veio atravessar-se na nossa vida sem o termos desejado. E de uma forma ou de outra, Santiago passou a ser uma referência espiritual de grande valor.

Ouvi falar numa rota milenar que, desde a descoberta do sepulcro do Apóstolo no século IX, conduziu milhões de pessoas das mais diversas origens europeias até Compostela. Continua a existir, apesar das diferentes motivações que possamos encontrar em cada peregrino. Investiguei ao de leve e descobri que o Caminho de Santiago está ao alcance de qualquer um.

Ainda que o meu conhecimento da matéria seja pouco profundo, parece-me que a verdadeira essência do Caminho está na possibilidade de nos descobrirmos a nós próprios. O Caminho que se percorre como peregrino é o mesmo, mas o caminho que se percorre enquanto indivíduo é tão diferente quanto o número de homens e mulheres que o escolheram.

Acabei por, no meio de todo o desassossego que me caracteriza enquanto ser humano, aceitar que o Caminho de Santiago seria o Bom Caminho. Aquele que poria frente-a-frente comigo própria, que me obrigaria a redescobrir-me, a renegar aquilo que há de menos bom em mim e a aceitar e incentivar aquilo que há de melhor no meu coração.

Apontei inicialmente a data de 11 de Fevereiro de 2007. Mas, de alguma maneira, o Destino quis que ela fosse adiada. Quando começar a pisar o Caminho, quero que a minha alma esteja tranquila em relação às preocupações práticas e materiais do quotidiano, para que possa concentrar-se unicamente em si mesma. E assim, depois de alguma hesitação, por motivos meramente profissionais, acabei por adiar a minha partida para 4 de Março.

A minha escolha contraria a minha localização geográfica. Poderia ter escolhido sair de casa a pé, percorreria cerca de 200 Km e chegaria a Santiago em pouco mais de uma semana. Esse seria o Caminho Português, uma rota muito utilizada no século XII. Mas, optei por outra via. Optei por fazer cerca de 800 Km desde Saint Jean Pie de Port em França até Santiago de Compostela em Espanha, atravessando a pé, todo o Norte da Península Ibérica, com vista privilegiada para a Via Láctea. Por ter mais tradição, esta rota parece-me ser aquela que inspira maior entusiasmo.

Creio que, apesar de me encontrar ainda muito confortavelmente instalada na minha vida quotidiana, já dei início ao meu caminho. Pois julgo que ele inicia sobretudo quando se toma a decisão sincera de o percorrer. A não ser que algo muito mais forte do que a minha vontade o justifique, a minha data jamais será adiada novamente.

Estou no Bom Caminho