O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

A primeira resposta do Caminho - à porta de casa

Hoje sou mais do que a vontade de fazer o Caminho. Todo o meu ser se transforma a cada instante, a cada pequeno passo. Ao sentir que a hora se aproxima, posso agora olhar para trás (e basta apenas ficar-me pelos últimos dois meses)e sentir uma grande evolução na forma como me entrego à vida. Todos os dias, desde essa altura, sou premiada com novas sensações. E cada um desses dias tem sido vivido com a mais intensa dedicação possível ao meu propósito, que é fazer o Caminho e conciliá-lo com o amor que as pessoas sentem por mim. A cada novo dia, segue-se uma revelação!

Aprendo a viver mais em conformidade com aquilo que realmente sou. Tomar a decisão de fazer o Caminho implica, em muitos casos, deixar cair a máscara, permitir que os outros me observem, promover aproximações, paixões e até rupturas. Tudo necessário!

Não há muito para dizer a esta altura. Há muito ainda que fazer! E muito mais para sentir! O entusiasmo e a excitação que sinto são de tal forma intensos que é difícil medir o ritmo das emoções sempre novas. Consigo apenas afirmar que me sinto a ser devolvida à vida. E tento responder a esse chamamento da forma mais genuína possível, mantendo sempre o respeito pelo amor e pelo carinho dos meus eleitos.

Há uma resposta que o Caminho já me deu. E só por isso teria valido a pena, se por acaso o Destino não quisesse que o meu passo se alongasse para muito mais longe da porta da minha casa. Não há nada na vida que seja mais importante do que amor. Senti-lo a revelar-se nas suas mais diversificadas formas de se mostrar, devolve-me a certeza de que saber viver é aprender a estabelecer o equilíbrio entre a nossa individualidade e as relações que construímos com aqueles que amamos inquestionavelmente, sem nunca trair a dedicação que lhes devemos por compromisso natural. E é cheia dessa certeza que parto! Com o coração a abrir-se para todos aqueles a quem eu dedico cada dia da minha vida!


Ultreya!

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

O difuso sentido do Caminho


Ainda está por descobrir a verdadeira motivação do Caminho. Respondo a esta vontade de peregrinar como se tivesse o compromisso de comparecer a um chamamento divino. Pela primeira vez na vida, abandonei aquelas introspecções que me fazem rejeitar certas decisões, só por acabarem por desvendar aspectos menos positivos que assustam e fazem refrear o ânimo. Sinto que, pela primeira vez, estou a construir.

Foi difícil assumir a decisão do Caminho perante aqueles que amo. Aprender a conviver com a sua preocupação sem ceder ao seu desejo de me terem sempre por perto, tem sido arrepiante. No meio disto tudo, aprendo a conhecer-me.

Vou ensaiando o passo pelas ruas da minha cidade pequenina. Mais do que isso, vou tomando o gosto do Caminho. Aos poucos, aprendo a gozar a calma de uma caminhada despreocupada. É o treino exigido ao corpo e à mente. Faço-o debaixo de chuva e frio e sem pressa de chegar a lado algum. As operações logísticas também têm tomado algum do meu tempo.

Por vezes alguém me pergunta pelas razões que me conduzem ao caminho. A minha resposta, quando não me fico pelo silêncio, é obscura, imprecisa, difusa... E às vezes, alguém arrisca a tentativa de adivinhar, querendo falar por mim. É isso que, no fundo, preocupa toda a gente. Não é o que Caminho implique necessariamente que eu esteja perdida. Na minha vida actual sei muito bem onde me encontro e por que via hei-de seguir. Quase que sei o dia de amanhã (Deus me perdoe o atrevimento desta afirmação tão convicta).

E eu quero ser surpreendida pelos desígnios do acaso, quero sentir o sabor de uma coisa nova a cada instante. Quero sentir que eu própria posso conceder-me agradáveis surpresas, mostrar-me mundos por explorar, facetas por conhecer...

Sei, no entanto, que o Caminho mostrará muito mais do que isto. É preciso ir lá e saber do que se trata. Que seja só uma simples confirmação dos meus desejos de liberdade e independência... E já ficarei feliz!

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Os bilhetes!!! (maquinista do comboio de Baiona a Saint Jean Pied de Port, 4 de março)


Já quase nada há que me possa fazer voltar atrás. Já tenho os bilhetes na mão. Comprei-os hoje durante a hora do almoço. Tendo-os comigo, sinto que já nada me pode dissuadir do Caminho. O Caminho ganha uma força extraordinária a cada momento de confirmação. E começa a adquirir aquela dimensão metafísica que, estando eu ainda longe, posso apenas adivinhar...

Vou fazer o Caminho. Hoje afirmo-o com a mais clara, decidida e firme das convicções!

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Aspectos práticos - Parte II

Hoje fiz uma mini-peregrinação pelas ruas do Porto, debaixo de chuva, vento e frio. Saí de Sá da Bandeira e desci até à Rua das Flores, onde supostamente ficava sediada a Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Compostela. Caminhar pelas ruas da minha cidade fez-me revisitar o Porto. Eu não vivo nesta cidade. Eu sinto-a... como se tudo o que ela tem de bom e de mau corresse no meu próprio sangue.

É difícil não achar o Porto uma cidade romântica, com tantos esconderijos e tantos segredos. Pensava nisto enquanto caminhava, ao mesmo tempo que me atropelava com todo o tipo de gente. Ouvia-se pregões de mulheres que vendiam guarda-chuvas a cinco euros. Uma oportunidade de negócio imperdível num dia que, por volta da hora do almoço, sentiu sem sucesso a ameaça de uma tarde de sol.

Saí do emprego disposta a conseguir a Credencial de peregrino e a comprar os bilhetes de comboio. Passei na rua dos Caldeireiros e procurei a réplica gigantesca de uma torneira que se encontra por cima da porta da "Casa Neves". Quando ía ali em miúda ficava parada a observá-la com entusiasmo, imaginando como seria se alguém a abrisse. E hoje o S.Pedro quase de devolvia essa doce e tranquila imagem da infância, tal era a intensidade da chuva!

Mas o meu compromisso era com Santiago. E era o Caminho que me ocupava o pensamento enquanto caminhava com calma. Intimamente, eu temia ser mal recebida na Associação que, logo logo, descobri ficava na casa da Rua das Flores, em frente a um café onde eu costumava ir todos os dias quando trabalhei com o meu tio na Rua Mouzinho da Silveira.

Foi-me dito que a Associação já não funcionava naquele edifício. E deram-me o contacto de um voluntário. Acabo de lhe telefonar. Ficou encontro marcado para tratarmos da Credencial.

Ao regressar passei na Estação de São Bento, com o propósito de comprar os bilhetes de comboio. A bilheteira internacional estava encerrada desde as 16:30. Mas forneceram-me um horário do Sud Express, o comboio que me levará até Hendaye no dia 3 de Março. E concluí que não preciso de ir embarcar a Lisboa. Basta-me ficar por Coimbra, o que me agrada bastante porque já me reduz o investimento.

Com tudo isto senti que o Caminho estava já a começar. Tratar dos aspectos práticos, não sendo eu uma pessoa prática por natureza, deu-me certezas acerca da minha opção. Também temi não estar à altura do Caminho. Temi que as pessoas que duvidam de mim pudessem vir a ter confirmada a sua razão. Procurei, então, não pensar muito nas objecções possíveis e decidi assumir uma postura decididamente inabalável em relação ao Caminho. Quando tiver os bilhetes na minha mão, sei que terei ainda mais dúvidas -não da minha capacidade de decisão e concretização, mas dúvidas específicas sobre o que vou encontrar.

O Porto convida a não sair. E eu preciso de me libertar do poder sedutor do seu veneno. Estou em guerra aberta com o poder encantatório da minha cidade.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Aspectos práticos - Parte I

Depois de muito pensar, acabei por decidir o meu trajecto até Saint Jean Pied de Port. Pedi ajuda aos peregrinos do http://www.jacobeo.net e, mais uma vez, o meu apelo foi - como eu imaginava - atendido prontamente. Surgiu até uma sugestão para viajar de avião até Londres e daí para Bayona, seguindo depois de táxi ou de autocarro para Saint Jean Pied de Port. Uma óptima proposta, com direito a orçamento e tudo. Sem dúvida seria a opção mais inteligente por ser a que representa um menor investimento financeiro. Não fosse o meu medo de voar...

Acabo de decidir ir de comboio a maior parte do trajecto. Já recolhi informações sobre preços e horários. Parto do Porto no dia 03 de Março às 16:10, contando chegar a Saint Jean Pied de Port no dia seguinte por volta das 13:15.

Fui copiosamente aconselhada a ter cuidado com a primeira etapa, de SJPP a Roncesvalles, aquele que atravessa os Pirinéus. Pode tornar-se perigosa com o mau tempo. Li até notícias de peregrinos que pereceram por se perderem na neve. Embora deseje muito atravessar os Pirinéus, vou pensar muito bem na possibilidade de começar o Caminho em Roncesvalles. Depende de como estiver o tempo quando chegar a Saint Jean Pied de Port.

Hoje procurei saber onde posso adquirir a minha Credencial de Peregrino. Para além das Paróquias locais, o documento que nos dá acesso à utilização dos albergues e abrigos ao longo do Caminho pode ser solicitado nas Associações de Amigos do Caminho de Santiago de Compostela. Há uma no nº 69 da Rua das Flores. Vou lá amanhã.

Há ainda quem não acredite no meu Caminho... Tento não pensar muito muito nisso. Tento não mostrar nada. Investir nisso far-me-á gastar energia preciosa que vou precisar no Caminho...

Nada mais a declarar por enquanto, a não ser que os assuntos emocionais pendentes começam a preocupar-me. E começa a preocupar-me ainda mais a minha falta de coragem para os enfrentar. Mas creio que, a seu tempo, tudo acontecerá da melhor forma possível...

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Aprendendo os primeiros passos... "Mim", Villamayor de Monjardin, 11 de março, foto by Gunter


Em apenas vinte e quatro horas a vida pode mudar... A diferença em relação aos dias comuns é que, de ontem para hoje, o ritmo acelerou vertiginosamente, deixando profundas marcas... é como se os acontecimentos passados neste espaço de tempo se assemelhassem a uma dolorosa tempestade.
Aconteceram coisas diferentes, estranhas e imensas na última semana. E tudo se precipitou ontem num evento, do qual falarei mais tarde... Não agora.

Agora quero apenas exultar a manutenção da minha vontade de peregrinar... à qual se veio juntar agora uma inabalável e imensa vontade de viver. Daquelas que nos predispõem a sentir diversas e variadíssimas paixões... daquelas que nos fazem amar inquestionavelmente. E que nos reforçam a sensibilidade, dando-nos armas vigorosas para vencermos os nossos medos mais concretos.

Creio que esta era uma das coisas que eu procurava quando me decidi pelo Caminho: um despertar tranquilo das minhas emoções mais sinceras. E eu sabia que havia de atingir este patamar bem antes de dar o primeiro passo físico. Era necessário, senão fundamental. Inevitável nesta minha busca de mim própria, onde procuro essencialmente uma base de reconciliação que me permita viver em equilíbrio com os meus sonhos, as minhas desilusões e os meus arrependimentos.

Agora que todo um mundo sensível e silencioso se prepara para toda uma legítima e merecida e perceptível manifestação, sinto-me mais conforme a mim mesma. É como se este fosse o primeiro passo... A preparação básica do espírito está concluída. O ritmo é aquele que se idealizou.

Estou pronta para iniciar o próximo nível.