Pela manhã assaltou-me uma estranha ansiedade. Até ali tudo tinha acontecido em conformidade com o meu planeamento. Mas nesse instante eu perdia a força no pulso; a determinação, que eu julgava definitivamente conquistada, cedia perante aquele desassossego. Não sei bem o que era: não me preocupava o eventual esquecimento de alguma coisa que pudesse vir a faltar-me; o facto de não ter preparado um roteiro com minúcia e pormenor tão pouco me afligia; partilhava com os meus aquela angústia natural de quem pela primeira vez vai lançar-se num voo por sua conta e risco, mas isso não me confundia a vontade de partir. Sentia já a manifestação do Caminho há alguns dias: creio que aquela intranquilidade tinha origem num certo medo de que algo, exterior a mim, pudesse frustrar-me nos instantes antes de embarcar.
Cheguei à estação acompanhada pelos meus mais queridos, que à última da hora me faziam as habituais recomendações, recrutando todas as diligências necessárias para que não me faltasse o ânimo. Mas mesmo assim, escapou alguma incerteza em relação à minha capacidade de percorrer a rota, naturalmente ligada à preocupação de que algo de mal me pudesse acontecer. Isso afectou-me gravemente nos últimos minutos. Não que me gerasse qualquer tipo de dúvida ou hesitação. Pelo contrário, agrava-me a vontade de cumprir aquilo a que me tinha proposto.
Atingia-me porque me provocava um sentimento antagónico: o reconhecimento do amor que nos une e a necessidade cada vez mais declarada de me afastar dos seus olhares vigilantes.
Disseram-me "até já" porque dá azar dizer palavras mais fortes quando se embarca rumo ao desconhecido. Sozinha, finalmente, senti o arrepio do começo das coisas novas: rumava a parte incerta. Não tinha qualquer informação concreta sobre o que encontraria em Hendaye nem sobre como de aí seguir para Saint Jean Pied de Port. Passei algumas horas a vaguear pela Estação de Coimbra B, à espera do Sud Express, colada à linha por onde o comboio passaria. Não fosse ele partir sem mim. Ainda desalinhada, procurava, sem sucesso, o afinamento à nova dimensão.
A viagem fez-se pela noite. Lua Cheia. Uma movimentação incrível de gente que não sossegava nas carruagens impedia-me de solicitar a serenidade que eu desejava. Lembro-me das fronteiras, do ar fresco da noite com a cabeça lançada para fora janela no imenso corredor da composição, do vislumbre quase imperceptível do ecplise... lembro-me de Burgos, das pessoas, do não conseguir fazer com que o meu estado de exaustão vencesse o meu sentido de alerta. Quase adormecendo, o mais discreto rumor de gente passando perto de mim fazia-me despertar com olhos muito abertos e atentos. Sentia-me nova perante os olhares curiosos das pessoas. Eu era a única passageira que viajava com uma mochila enorme e com um bastão ameaçador. Alguns tentaram interrogar-me sobre o meu destino. Eu respondia: não sei! E depois pousava os olhos fixos num horizonte qualquer, desanimando qualquer outra intervenção daquele tipo. Eu desejava-me no silêncio, na solidão de mim mesma, no encontro discreto com outras pessoas com quem pudesse partilhar a mais sublime das identidades, sem que para isso fosse imperativo trocar qualquer palavra. Foi neste confronto de comparações, a caminho de Hendaye, que lancei as primeiras bases na construção do meu novo estatuto de peregrina.
De Hendaye não havia comboio directo para Saint Jean, pelo que tive de ir, forçosamente, a Baiona fazer transbordo. Aí fiquei-me pela tarde, ainda assustada com alguns vultos estranhos que passeavam pelas ruas, ainda intimidada com o olhar das pessoas sobre mim, pouco disposta a acostumar-me à antipatia da maioria daqueles com quem tive obrigatoriamente de falar. Hoje, mais do que naquela tarde, estranho o ambiente pouco hospitaleiro de Baiona. É que por ali passam muitos peregrinos, é um ponto de partida muito familiar entre aqueles que se lançam ao Caminho... e toda a cidade me pareceu desacostumada das peregrinações...
Mais uma vez fui-me plantar junto aos carris por onde passaria a minha locomotiva. Creio que era a linha mais distante e a menos movimentada, a mais recôndita, a mais solitária. Chegada ali, a minha ansiedade conheceu novos níveis de excitação. Não havia ninguém à espera. Eu estava sozinha e já imaginava a travessia dos Pirinéus, movida a medo provocado pelos relatos que tinha lido sobre peregrinos que aí sucumbem por se perderem na neve. E era época das neves, embora nada no clima de Baiona fizesse adivinhar a tormenta que se preparava dali a três dias.
Era estranho. Continuava insistindo na minha solidão, mas dar-me-ia algum gozo poder mergulhar os meus olhos noutros olhos que não fossem os das pessoas inseridas no seu ambiente familiar. Sentir só a presença e a afinidade de outra pessoa que partilhasse comigo em segredo aquela condição errante!!! E pelo aproximar da hora da partida, lá foram surgindo aos poucos aqueles que foram os meus primeiros companheiros de viagem. Serenamente, um após o outro, chegaram: Tabhita, da Holanda, Michelle dos EUA, Wolfgang da Alemanha, Joseph e Peter da Eslováquia. Bastou-me senti-los, perceber pela sua imagem e pelo brilho dilatado das suas pupilas tão ansiosas quanto as minhas, para me sentir, finalmente, em plena conciliação comigo mesma. Num ápice, todo o desassossego se foi. Aliviado o peso das angústias, era agora o tempo para o peso das coisas que trazia penduradas nas costas. E eu, paradoxalmente, naquele instante, pude sentir o que é ser leve como uma asa.
Em silêncio, numa cadência que imita a paciência do tempo, a velha composição lá se foi arrastando até Saint Jean Pied de Port, atravessando pequenos vales, vencendo discretas colinas, ladeando imensos cursos de água, inserindo-nos numa paisagem cada vez mais conforme a nós... parecendo também ela querer dar-se ao abandono daquilo que lhe é tão costumeiro. Fugia a passo lento, a locomotiva, como se quisesse ensinar-nos o ritmo que deve ter o peregrino que quer ousar mover o mundo.
Cheguei à estação acompanhada pelos meus mais queridos, que à última da hora me faziam as habituais recomendações, recrutando todas as diligências necessárias para que não me faltasse o ânimo. Mas mesmo assim, escapou alguma incerteza em relação à minha capacidade de percorrer a rota, naturalmente ligada à preocupação de que algo de mal me pudesse acontecer. Isso afectou-me gravemente nos últimos minutos. Não que me gerasse qualquer tipo de dúvida ou hesitação. Pelo contrário, agrava-me a vontade de cumprir aquilo a que me tinha proposto.
Atingia-me porque me provocava um sentimento antagónico: o reconhecimento do amor que nos une e a necessidade cada vez mais declarada de me afastar dos seus olhares vigilantes.
Disseram-me "até já" porque dá azar dizer palavras mais fortes quando se embarca rumo ao desconhecido. Sozinha, finalmente, senti o arrepio do começo das coisas novas: rumava a parte incerta. Não tinha qualquer informação concreta sobre o que encontraria em Hendaye nem sobre como de aí seguir para Saint Jean Pied de Port. Passei algumas horas a vaguear pela Estação de Coimbra B, à espera do Sud Express, colada à linha por onde o comboio passaria. Não fosse ele partir sem mim. Ainda desalinhada, procurava, sem sucesso, o afinamento à nova dimensão.
A viagem fez-se pela noite. Lua Cheia. Uma movimentação incrível de gente que não sossegava nas carruagens impedia-me de solicitar a serenidade que eu desejava. Lembro-me das fronteiras, do ar fresco da noite com a cabeça lançada para fora janela no imenso corredor da composição, do vislumbre quase imperceptível do ecplise... lembro-me de Burgos, das pessoas, do não conseguir fazer com que o meu estado de exaustão vencesse o meu sentido de alerta. Quase adormecendo, o mais discreto rumor de gente passando perto de mim fazia-me despertar com olhos muito abertos e atentos. Sentia-me nova perante os olhares curiosos das pessoas. Eu era a única passageira que viajava com uma mochila enorme e com um bastão ameaçador. Alguns tentaram interrogar-me sobre o meu destino. Eu respondia: não sei! E depois pousava os olhos fixos num horizonte qualquer, desanimando qualquer outra intervenção daquele tipo. Eu desejava-me no silêncio, na solidão de mim mesma, no encontro discreto com outras pessoas com quem pudesse partilhar a mais sublime das identidades, sem que para isso fosse imperativo trocar qualquer palavra. Foi neste confronto de comparações, a caminho de Hendaye, que lancei as primeiras bases na construção do meu novo estatuto de peregrina.
De Hendaye não havia comboio directo para Saint Jean, pelo que tive de ir, forçosamente, a Baiona fazer transbordo. Aí fiquei-me pela tarde, ainda assustada com alguns vultos estranhos que passeavam pelas ruas, ainda intimidada com o olhar das pessoas sobre mim, pouco disposta a acostumar-me à antipatia da maioria daqueles com quem tive obrigatoriamente de falar. Hoje, mais do que naquela tarde, estranho o ambiente pouco hospitaleiro de Baiona. É que por ali passam muitos peregrinos, é um ponto de partida muito familiar entre aqueles que se lançam ao Caminho... e toda a cidade me pareceu desacostumada das peregrinações...
Mais uma vez fui-me plantar junto aos carris por onde passaria a minha locomotiva. Creio que era a linha mais distante e a menos movimentada, a mais recôndita, a mais solitária. Chegada ali, a minha ansiedade conheceu novos níveis de excitação. Não havia ninguém à espera. Eu estava sozinha e já imaginava a travessia dos Pirinéus, movida a medo provocado pelos relatos que tinha lido sobre peregrinos que aí sucumbem por se perderem na neve. E era época das neves, embora nada no clima de Baiona fizesse adivinhar a tormenta que se preparava dali a três dias.
Era estranho. Continuava insistindo na minha solidão, mas dar-me-ia algum gozo poder mergulhar os meus olhos noutros olhos que não fossem os das pessoas inseridas no seu ambiente familiar. Sentir só a presença e a afinidade de outra pessoa que partilhasse comigo em segredo aquela condição errante!!! E pelo aproximar da hora da partida, lá foram surgindo aos poucos aqueles que foram os meus primeiros companheiros de viagem. Serenamente, um após o outro, chegaram: Tabhita, da Holanda, Michelle dos EUA, Wolfgang da Alemanha, Joseph e Peter da Eslováquia. Bastou-me senti-los, perceber pela sua imagem e pelo brilho dilatado das suas pupilas tão ansiosas quanto as minhas, para me sentir, finalmente, em plena conciliação comigo mesma. Num ápice, todo o desassossego se foi. Aliviado o peso das angústias, era agora o tempo para o peso das coisas que trazia penduradas nas costas. E eu, paradoxalmente, naquele instante, pude sentir o que é ser leve como uma asa.
Em silêncio, numa cadência que imita a paciência do tempo, a velha composição lá se foi arrastando até Saint Jean Pied de Port, atravessando pequenos vales, vencendo discretas colinas, ladeando imensos cursos de água, inserindo-nos numa paisagem cada vez mais conforme a nós... parecendo também ela querer dar-se ao abandono daquilo que lhe é tão costumeiro. Fugia a passo lento, a locomotiva, como se quisesse ensinar-nos o ritmo que deve ter o peregrino que quer ousar mover o mundo.

