O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

sábado, 19 de maio de 2007

O primeiro passo que move o mundo

Pela manhã assaltou-me uma estranha ansiedade. Até ali tudo tinha acontecido em conformidade com o meu planeamento. Mas nesse instante eu perdia a força no pulso; a determinação, que eu julgava definitivamente conquistada, cedia perante aquele desassossego. Não sei bem o que era: não me preocupava o eventual esquecimento de alguma coisa que pudesse vir a faltar-me; o facto de não ter preparado um roteiro com minúcia e pormenor tão pouco me afligia; partilhava com os meus aquela angústia natural de quem pela primeira vez vai lançar-se num voo por sua conta e risco, mas isso não me confundia a vontade de partir. Sentia já a manifestação do Caminho há alguns dias: creio que aquela intranquilidade tinha origem num certo medo de que algo, exterior a mim, pudesse frustrar-me nos instantes antes de embarcar.

Cheguei à estação acompanhada pelos meus mais queridos, que à última da hora me faziam as habituais recomendações, recrutando todas as diligências necessárias para que não me faltasse o ânimo. Mas mesmo assim, escapou alguma incerteza em relação à minha capacidade de percorrer a rota, naturalmente ligada à preocupação de que algo de mal me pudesse acontecer. Isso afectou-me gravemente nos últimos minutos. Não que me gerasse qualquer tipo de dúvida ou hesitação. Pelo contrário, agrava-me a vontade de cumprir aquilo a que me tinha proposto.
Atingia-me porque me provocava um sentimento antagónico: o reconhecimento do amor que nos une e a necessidade cada vez mais declarada de me afastar dos seus olhares vigilantes.

Disseram-me "até já" porque dá azar dizer palavras mais fortes quando se embarca rumo ao desconhecido. Sozinha, finalmente, senti o arrepio do começo das coisas novas: rumava a parte incerta. Não tinha qualquer informação concreta sobre o que encontraria em Hendaye nem sobre como de aí seguir para Saint Jean Pied de Port. Passei algumas horas a vaguear pela Estação de Coimbra B, à espera do Sud Express, colada à linha por onde o comboio passaria. Não fosse ele partir sem mim. Ainda desalinhada, procurava, sem sucesso, o afinamento à nova dimensão.

A viagem fez-se pela noite. Lua Cheia. Uma movimentação incrível de gente que não sossegava nas carruagens impedia-me de solicitar a serenidade que eu desejava. Lembro-me das fronteiras, do ar fresco da noite com a cabeça lançada para fora janela no imenso corredor da composição, do vislumbre quase imperceptível do ecplise... lembro-me de Burgos, das pessoas, do não conseguir fazer com que o meu estado de exaustão vencesse o meu sentido de alerta. Quase adormecendo, o mais discreto rumor de gente passando perto de mim fazia-me despertar com olhos muito abertos e atentos. Sentia-me nova perante os olhares curiosos das pessoas. Eu era a única passageira que viajava com uma mochila enorme e com um bastão ameaçador. Alguns tentaram interrogar-me sobre o meu destino. Eu respondia: não sei! E depois pousava os olhos fixos num horizonte qualquer, desanimando qualquer outra intervenção daquele tipo. Eu desejava-me no silêncio, na solidão de mim mesma, no encontro discreto com outras pessoas com quem pudesse partilhar a mais sublime das identidades, sem que para isso fosse imperativo trocar qualquer palavra. Foi neste confronto de comparações, a caminho de Hendaye, que lancei as primeiras bases na construção do meu novo estatuto de peregrina.

De Hendaye não havia comboio directo para Saint Jean, pelo que tive de ir, forçosamente, a Baiona fazer transbordo. Aí fiquei-me pela tarde, ainda assustada com alguns vultos estranhos que passeavam pelas ruas, ainda intimidada com o olhar das pessoas sobre mim, pouco disposta a acostumar-me à antipatia da maioria daqueles com quem tive obrigatoriamente de falar. Hoje, mais do que naquela tarde, estranho o ambiente pouco hospitaleiro de Baiona. É que por ali passam muitos peregrinos, é um ponto de partida muito familiar entre aqueles que se lançam ao Caminho... e toda a cidade me pareceu desacostumada das peregrinações...

Mais uma vez fui-me plantar junto aos carris por onde passaria a minha locomotiva. Creio que era a linha mais distante e a menos movimentada, a mais recôndita, a mais solitária. Chegada ali, a minha ansiedade conheceu novos níveis de excitação. Não havia ninguém à espera. Eu estava sozinha e já imaginava a travessia dos Pirinéus, movida a medo provocado pelos relatos que tinha lido sobre peregrinos que aí sucumbem por se perderem na neve. E era época das neves, embora nada no clima de Baiona fizesse adivinhar a tormenta que se preparava dali a três dias.

Era estranho. Continuava insistindo na minha solidão, mas dar-me-ia algum gozo poder mergulhar os meus olhos noutros olhos que não fossem os das pessoas inseridas no seu ambiente familiar. Sentir só a presença e a afinidade de outra pessoa que partilhasse comigo em segredo aquela condição errante!!! E pelo aproximar da hora da partida, lá foram surgindo aos poucos aqueles que foram os meus primeiros companheiros de viagem. Serenamente, um após o outro, chegaram: Tabhita, da Holanda, Michelle dos EUA, Wolfgang da Alemanha, Joseph e Peter da Eslováquia. Bastou-me senti-los, perceber pela sua imagem e pelo brilho dilatado das suas pupilas tão ansiosas quanto as minhas, para me sentir, finalmente, em plena conciliação comigo mesma. Num ápice, todo o desassossego se foi. Aliviado o peso das angústias, era agora o tempo para o peso das coisas que trazia penduradas nas costas. E eu, paradoxalmente, naquele instante, pude sentir o que é ser leve como uma asa.

Em silêncio, numa cadência que imita a paciência do tempo, a velha composição lá se foi arrastando até Saint Jean Pied de Port, atravessando pequenos vales, vencendo discretas colinas, ladeando imensos cursos de água, inserindo-nos numa paisagem cada vez mais conforme a nós... parecendo também ela querer dar-se ao abandono daquilo que lhe é tão costumeiro. Fugia a passo lento, a locomotiva, como se quisesse ensinar-nos o ritmo que deve ter o peregrino que quer ousar mover o mundo.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Boadilla - a luz dos olhos de Deus


"Que sempre que alguma coisa queira vir medir forças com a minha serenidade, invoco a presença da luz dos outeiros da meseta ao meu olhar, para que assim supere a cor que há nas pupilas do Criador o negrume e a cegueira que há nas da criatura"


Diziam-me que a minha cidade não tem horizonte. E eu cresci educada nessa fé. E injustamente, quando regressei, quis procurar nas minhas ruas de sempre um raio que fosse da luz dos olhos de Deus, que é a luz que habita os outeiros demorados que alongam o caminho até Boadilla.
E não tendo tido qualquer sucesso nesta minha busca, deixei-me andar durante os primeiros dias muito zangada e carrancuda com o meu berço.
Fui cultivando uma fé de injúrias e rituais de rejeição, que em mim, mais do que promover a tranquilidade que desejo manter na flor da pele, me devolviam a sensação de um desassossego familiar. Julguei o Porto desajustado à minha nova dimensão. Pequei por orgulho. Mas tive a oportunidade de me redimir com a humildade de um peregrino.
Passava já um mês da data do meu regresso, quando, por mero acaso, fui levada ao topo do edifício mais alto do Porto. Curiosamente, a mesma pessoa que me deu a primeira inspiração do Caminho, que é também quem me alimenta a inspiração original da vida, conduz-me até aí. Longe de adivinhar a intensidade da palpitação do meu coração: vi o Porto todo, exibindo-se perante o meu olhar sôfrego de o conter numa só mirada. Não cabia! E havia um horizonte imenso que o circundava. Ao longe, um pequeno vislumbre do mar, as mesmas cores do outeiro que atravessa Boadilla, as portas do coração a abrirem-se de novo para celebrar a paz com a cidade que me viu nascer.

Atravessei a meseta com a mais pura das facilidades físicas. Ganhara uma espantosa agilidade mecânica, conseguira atingir o ponto exacto do afinamento dos passos, caminhava veloz, mas naturalmente. Obedecia ao ímpeto do meu coração: os olhos pousavam no Infinito, as pernas mantinham-me o corpo hirto, a cada instante conquistava a segurança de mim mesma: a convicção de que chegaria a Santiago.
Aí o Caminho faz-se pelo solitário: não há como fugir ao reencontro com a nossa essência mais escondida. A meseta convida a uma profunda e sincera meditação. Os sonhos e as ambições mais absurdos são abandonados mesmo ali, à beira da estrada, para dar lugar a uma genuína reconstrução da identidade. Tudo à volta tem uma amplitude interminável: as colinas que se seguem umas após as outras, pintadas do verde virgem que só há nos dias inaugurais Primavera, a estrada que serpenteia por entre elas...

De longe vêem-se as curvas e as subidas delicadas, umas seguindo as outras. O cenário repete-se de cume em cume. Chegar ao topo e avistar a torre de uma Igreja, a cruz de um cemitério, uma habitação degradada é adivinhar que em breve o nosso corpo encontrará o conforto desejado de um albergue, a palavra amiga de um hospitaleiro que está à espera. E caminham-se eternidades com os olhos postos no "pueblo", cruzam-se outros tantos montes, atravessam-se colinas sempre iguais às anteriores: Boadilla parece não chegar ao alcance dos nossos pés, embora nos tenha entrado já pelos olhos dentro.

No céu de fim de tarde pinta-se uma mescla de cores naturais. O passo refreia para obrigar o olho ao último vislumbre do caminho deixado atrás: Kiko e Perla acabam de alcançar o topo de uma colina que eu descera há uns dez minutos,a mesma que oferece a imagem difusa de Boadilla pela primeira vez. Levo, possivelmente, um quilómetro à sua frente. Vejo-os pequeninos, naturalmente inscritos na grandeza da paisagem imensamente verde, ainda fresca da neve recente do Inverno em despedida. O céu por cima deles é negro e carregado. À nossa frente, o horizonte pinta-se de azul claro misturado com as cores ardentes do Sol que toma posse dos outeiros. No encontro das tonalidades estou eu, prostrada, sorvendo a luz das cores do fim de tarde. A Oeste vejo o Astro forçar a barreira de uma gorda nuvem severa e grave, vencendo-a com a tranquilidade das coisas que não conhecem a pressa dos homens: a luz dos olhos de Deus espreita-nos e guia-nos, honra-nos. Ao longe, Boadilla permanece na dimensão opaca dos horizontes que parecem inatingíveis. O coração cresce de uma golpada só. E eu sinto-me ser abraçada por todas as forças boas do Universo.


sábado, 5 de maio de 2007

... Y te damos desayuno! (Juan Luis, Calzadilla de la Cueza, 22 de março)


A saída de Puente de la Reina fez-se pelo silêncio da manhã... e pelo solitário também. Lembro-me de Gunter no albergue: era o único que se ficava ainda por ali. Mais tarde encontra-lo-ia no caminho e com ele cumpriria uma boa parte da etapa. O Sol regressava cheio de força. Mas o terreno estava ainda castigado com as marcas dos aguaceiros dos dias anteriores: muita lama cobria muito do chão que nos conduzia a Estella.
A história de uma etapa mágica como a deste dia terá de ser, como outras tantas, adiada, pois agora impõe-se o momento de chegada a Estella, onde me foi dado a conhecer Juan Luis; mais tarde, com a amplitude das afinidades em alargamento, Juan Lulu. Só para os amigos!!!
E esta pequena introdução ao início do novo dia, que representa também a passagem a uma nova e delirante fase do Caminho, serve apenas para lembrar que, se nesse dia eu estava pronta para recuperar a segurança dos meus passos - pois o ânimo assim o determinava - por outro lado, a minha condição física cedia, pela primeira vez, à falta de preparação adequada. E o rendimento das minhas pernas via-se agora ameaçado pelo castigo do corpo carregando em si as moléstias inaugurais do Caminho. Suspeitei e confirmei mais tarde: bolhas nos pés!
Cheguei a Estella arrastando-me no bastão que levei de Portugal. Trazia a vontade elevada, mas acompanhava-a uma necessidade urgente de descansar aquela nova dor, que de tanto ser castigada, me deixava, à chegada a Estella, numa espécie de transe. Estella proporciona-me o acolhimento mais querido do Caminho, pela intenção das acções hospitaleiras mas, sobretudo, porque nunca, em todo o percurso, o meu desejo de chegar ao albergue foi tão grande e assumido.
Juan Luis estava sentado. Dá-me as boas tardes, convida-me a sentar. Pelo casa, sinto espalhar-se o agradável perfume de incenso e velas aromatizadas. Bob Marley canta, como se estivesse ali em presença, respirando ao nosso ouvido para nos tranquilizar. A voz de Juan arrasta-se, como que por solidariedade para comigo, para me dizer, num tom quente e descansado, as boas-vindas. Acrescenta, de seguida, o preço do acolhimento: "Aqui pagas cinco euros e cinquenta". Faz uma pausa sossegada como uma estrela, os olhos negros fixam-me com admiração, estende o braço direito com o indicador esticado querendo alcançar-me, por fim remata: "Y te damos desayuno".
Não que me importasse que o "desayuno" não estivesse, na maioria das vezes, incluído no valor estipulado pelo albergue. O que me encantava era a alegria de Juan, por enquanto na condição de hospitaleiro, de poder devolver-nos a sensação de "estar em casa".
Juan fala com serenidade, faz acompanhar as palavras com movimentos lentos da cabeça, os olhos fixam sempre o mesmo ponto distante e difuso. Preenche a coreografia, quase sempre, com elevações cansadas do braço direito, apontando horizontes longínquos.
Conversámos sobre a farmácia que não estava aberta, sobre as suas origens canárias e sobre a sua nobre intenção em querer alcançar-nos no Caminho dentro de dois dias, pois nessa altura assumiria, de novo, a condição de peregrino. Assiste ao tratamento que eu dou à bolha instalada na planta do meu pé, depois de eu recusar a sua intervenção. Chama-me "peregrina legionária". Seguiu-nos os passos até Logroño, onde só o vi pelo desayuno.
Em Najéra conquista-nos a alma ao ser recusado no albergue por esquecimento da credencial. Aí monta-se um circo curioso e triste. O hospitaleiro de Najéra quer-nos convencer que sem o papel oficial nenhum peregrino o é de facto. Mantém-se rijo como um tronco nesta convicção idiota e não aprende a ceder aos nossos apelos. Um grupo de palermas de uma associação qualquer é chamado ao albergue para garantir que nenhum de nós abre a porta, pela noite, ao peregrino que é deixado na rua ao frio. Juan Luis pede-nos calma, que não nos preocupemos, que o Caminho é assim mesmo: um dia dá, um dia tira; que não há por que fazer grandes barulhos, que o verdadeiro peregrino é aquele que dorme ao relento da noite escura e fria se assim tiver de ser...
Pela manhã encontrei-o dormindo à porta de Igreja. Fomos juntos ao "desayuno" e, desde aí, os nossos passos ensaiam o afinamento que nos vai conduzir até Agés. Aí, Juan, encantado com a casa da norueguesa Anya, deixa-se ficar por dois dias. Burgos teria sido diferente se Pierre não tivesse partido, se Juan tivesse estado connosco. Muitas vezes falávamos em como, chegados a Burgos, iríamos "buscar la vida" em frente à Catedral, com o Kiko na guitarra, a minha voz a cantar e Juan de gorro estendido ao contrário a recolher os donativos dos eventuais interessados na nossa arte.

Não se concretizou... Mas mais importante: Juan iria ajustar-se ao nosso andamento para nos recuperar na etapa de Boadilla del Camino a Calzadilla de la Cueza. Avistei-o ao longe e corri para o abraçar. Aquele abraço durou até ao dia que amanheceu em Astorga. Nessa manhã desapareceu-nos sem dizer palavra, talvez por não se querer obrigar, a si e a nós, ao doloroso instante da despedida. No fundo, é como se não precisasse. Juan foi-se embora, levando consigo a certeza de que os nossos caminhos não se descruzavam ali para sempre. Foi só fazer um desvio necessário. Já, já volta!