Naquela manhã já nada me devolvia a sensação do dia anterior. Tinha dormido uma paz angelical. Com a noite foram-se todos os cuidados. Faltava cumprir os últimos quilómetros e conhecer o sabor original das coisas terminadas. Eu já adivinhava: nada transcendente ao aproxirmar-me da Catedral. Chegar até ali significava o apartamento, ainda que ilusoriamente temporário, daquelas pessoas que eu aprendi a prezar como se laços de sangue nos unissem.
Por outro lado, ao contrário da Perla, da Giulia e do Kiko, eu já conhecia a cidade da Catedral. Nenhuma surpresa à minha espera. Durante todo a rota, aquele era o dia que me mais me aproximava de casa.
A emoção que eu imaginava antes de realizar o Caminho, nada tinha que pudesse relacioná-la com a simples chegada a Compostela: o destino tão desejado! Era imensa, sim! Mas estava em franca associação com essas ideias do afastamento, do retorno a casa e com uma certa sensação de que algo ficava por cumprir... talvez Finisterra!
Semanas antes eu tinha prometido à Perla que a acompanhava até lá onde o mundo acaba. Mas fui obrigada a recuar por me ter sido feita, durante o Caminho, uma proposta de trabalho que naquela altura me parecia irrecusável e que implicaria, necessariamente, o meu regresso ao Porto por volta do dia 10 de abril. Por enquanto, Compostela!
De maneira que me sinto como protagonista de um desvio não desinteressado, obrigatório e fundamental. Porque a intenção, desde Burgos era a de que os meus passos me conduzissem até ao ponto em que a Terra fosse superada pelo Oceano para que, assim, o mundo, o Caminho ou o que seja,pudesse conhecer o seu termo.
Hoje foi dia de atingir outra Catedral, de cumprir a finalização de outro Caminho. Não sei das possibilidades de levar a cabo esta "outra" empresa se tivesse seguido a Finisterra naquela altura. Sei apenas que havia, talvez, desistido deste "outro" sendeiro há muito tempo, por julgar que me faltariam as forças necessárias. Por julgar que já não as tinha em reserva. E a inspiração que me fez retomá-lo vem-me precisamente do confronto com esse trabalho que aceitei e que me afastou de Finisterra. Acordei para essa outra realidade: a das vocações e das intuições e a de que não há porque nos sentirmos culpados se buscamos na vida uma realização profissional conforme às nossas inclinações essenciais.
Assim nesta malha extensíssima de associações entre umas coisas e as outras, decidi continuar esse outro Caminho há muito tempo começado, motivado que foi por um sonho, o qual insisto em recuperar. Hoje conclui-se, talvez, a mais importante das etapas. E hoje, tão naturalmente como as inspirações, vem-me, de novo, aquela sensação de algo que fica por cumprir. E questiono-me, necessariamente, se este não será, então, o instante em que devo devolver-me a Compostela naquele ponto em que suspendi a minha Peregrinação.
Hoje sinto-me em condições de poder responder, em parte, a algumas pessoas que me perguntam se o Caminho mudou os rumos da minha vida. A resposta é intuitivamente afirmativa. Porque agora é o verdadeiro momento do desbloqueio, aquele em que me é possível vislumbrar com clareza os verdadeiros sentidos de Compostela. Não sinto mais o medo de ser ultrapassada pelos outros ritmos da vida. Hoje rompo a terra definitivamente.