O meu Caminho para Santiago

O meu Caminho para Santiago

sábado, 18 de agosto de 2007

General Franco - o peregrino de Jerusalém

Talvez todos já tenhamos ouvido falar, ao de leve, no peregrino de Jerusalém. É português, tem 36 anos e muito em breve vai encetar uma peregrinação à Terra Santa, desde Braga, passando por Santiago de Compostela, Lourdes e Roma. A pé! Cumprir-se-ão cerca de 8000 Km, durante oito meses. No tempo e na distância absolutamente incríveis, a consagração do homem.
Amaro Franco tem um blog onde assina como General Franco. Foi por aí que ousou comunicar ao universo dos amigos próximos a decisão da peregrinação rebelde. Não faltaram algumas censuras, as habituais manifestações de admiração pela coragem demonstrada, os votos de uma viagem feliz.
Alguém lhe deseja que durante o percurso possa, enfim, encontrar-se consigo próprio, descobrir-se, conhecer-se. Fica a suspeita discreta de que Franco talvez seja um homem perdido, sem horizontes, cujo espírito peregrino carece de lucidez.
Pelo contrário, o General demonstra, em sorrateiras e parcas palavras, um auto-conhecimento exímio, invejável. Não é por estar perdido que se faz peregrino; mas é precisamente por não o estar que o é.
Aqui fica o endereço: http://franco.blog.pt/

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Saudades




O Caminho era apenas uma discreta alusão às nossas vidas quotidianas. Só ao de leve era capaz de trazer a sensação dos medos do dia-a-dia. A obrigação de mexer as pernas desbloqueia os habituais temores e desperta qualidades incógnitas, que, em pouco tempo, se enraízam em nós de tal forma que é como se sempre tivessem feito parte da nossa maneira de ser.

Imagine-se um grupo de pessoas. Um país diferente é representado por cada uma delas. As línguas maternas são diversas também. Novidades acontecem em cada um dos instantes que compõem essa fina teia de encontros e aproximações. Inicialmente, preside a sensação das diferenças. O primeiro contacto é sempre caracterizado por uma negociação linguística, onde se tem em vista o estabelecimento de um código comum. Depois lá vem outro companheiro que não fala Espanhol ou outro que pouco sabe Inglês e a retoma das negociações deste género é uma constante durante quase todo o percurso. E se em Roma és Romano, então em Espanha és Espanhol, e a língua de nuestros irmanos foi a grande vencedora do grande torneiro dos idiomas. De vez em quando lá aparece um alemão que, na língua castelhana, só conhece as palavras para dizer vinho, cerveja e sande de presunto com tomate; ou um estónio que aprendeu apenas como se dizem os piropos para chamar a atenção das chicas guapas; e nesses casos Roma cede o palco à Germânia que se faz representar pelo Inglês, que em terras de Espanha é tido como um dialecto rudimentar de gente ou muito culta ou muito bárbara, já que os espanhóis acreditam, à semelhança dos alemães, na superioridade da raça linguística que representam. A coisa parece ser desconfortável, sugerindo, talvez, uma grande dificuldade em comunicar, quando num grupo coeso de peregrinos surge um espanhol que não fala Inglês e, ao mesmo tempo, um alemão que não fala a língua de Castela. Nesse aspecto, senti-me muito portuguesa e arrisquei tudo o quanto fosse idioma que tinha prendido na escola ou na vida e por isso, Inglês, Francês, Italiano e uma língua indefinível que no começo nomeei de Portunhol, mas que no final se havia transformado e aproximado do Espanhol. Atrevi-me até a um pouco de Alemão. Aprendi algumas palavras em todas línguas presentes e, durante algum tempo, os albergues acordavam com a minha voz a declinar os bons dias em todos os idiomas possíveis.

Mas, dizia eu, a coisa poderia parecer complicada. O extremo zelo de uns e a absoluta indiferença de outros podia, de algum modo, supor a instalação de um ruído provocador no seio da comunicação. Mas não foi. A determinada altura a Perla dizia-me que tinha a sensação de um idioma comum, que nunca houvera sentido a ameaça das diferenças evidentes. E era verdade. Mesmo quando o assunto era melindroso e abstracto, a comunicação fluía, derrubando as barreiras históricas e culturais mais persistentes. O peregrino depressa aprende a dar-se a entender aproveitando-se dos silêncios das palavras quando estas se calam por se faltarem a si próprias. O lugar comum mais recorrente é aquele que ocupa o lugar da velha máxima Um olhar vale mais do que mil palavras. E isto acontecia não porque se sentisse o pesadelo das diferenças mas, muito pelo contrário, porque o ambiente envolvente motivava o nosso investimento nas afinidades. Essa aproximação era promovida pela subtileza dos gestos, naturalmente alimentada por características humanas essenciais. Poupados nas palavras, éramos todos extremamente generosos na forma de abrir o coração.

Isto tudo veio a propósito das coisas raras que acontecem durante o Caminho, que em nada se assemelham às coisas do dia-a-dia. De repente assalta-me uma recordação e eu fico para aqui saudosa a recordar. E tenho ainda a memória tão fresca que não há um dia em que eu não demore algum do meu tempo num estranho exercício de saudade. Foram dias mágicos esses! Tal era a constância da novidade que, no mesmo dia e num curto espaço de tempo, surpreendi dois dos meus amigos a usarem a expressão vida real para se referirem aos seus quotidianos. Na vida real eu costumo ser mais tímido – dizia um deles. Eu argumentava: Mas isto é a vida real; E respondiam-me: Pois é, mas não é bem a mesma coisa, não é bem a mesma coisa.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Calzadilla de la Cueza - o milagre das botas


Chama-se Via Aquitânia. E os peregrinos veteranos conhecem a dureza das pedras que formam o tapete interminável do pouco que resta da antiga estrada romana. São cerca de 12 Km de pedra miudinha de revelo irregular, sem a sombra de uma árvore, sem uma povoação intermédia, sem se avistar viva alma. Aí a linha é recta e plana e aos primeiros passos nada faz supôr que aquele trilho ancestral se transforme num dos sérios obstáculos para o peregrino firme e determinado.

Pouco mais de meia hora e o fulgor do ânimo começa a ceder perante o tapete romano; cada palmo de chão sob os nossos pés parece ser sempre o mesmo e as pedrinhas pequeninas que o compõem, matreiras como raposas maduras, moem-nos as pernas pouco a pouco. Imaginámos o martírio que será percorrer aquela rota numa tarde de Verão. E essa especulação trouxe às nossas bocas uma sede sem nome e às nossas pernas um cansaço sem uma raiz lógica e concreta. A sugestão ficou e atrasou-nos. Foi como se ao invocar essa tarde quente de Agosto a tivéssemos trazido até nós, numa manhã de Primavera em que o Sol brilhava num céu limpo e em que se sentia ainda o hálito fresco do Inverno em despedida.

Apesar do grau de dificuldade, que para mim supera sem comparação possível o da travessia dos Pirinéus ou da escalada de O Cebreiro, a nossa condição física estava no auge das suas possibilidades. Todos nós tínhamos chegado àquele patamar em que se tem a sensação de tudo se poder alcançar com um simples passo. Todo nós, menos o Kiko.


O terreno lamacento dos últimos dias - tínhamos apanhado neve nos últimos dias - havia penetrado nos buracos das suas suas botas, que eram velhas e permeáveis desde o início, deixando-lhe os pés frios e cheios de bolhas. Quando se caminha com bolhas, faz-se por não as pisar por causa da dor que isso provoca, de maneira que se sacrificam outras partes do corpo que, não tarda muito, começam também elas a ceder. E é como uma bola de neve, cujo feitiço só se desenlaça com descanso e tratamento adequado. De qualquer das formas, o Kiko precisava era de uma botas novas e não tinha como comprá-las e nós não tínhamos como ceder-lhe as nossas porque só trazíamos um par para cada e o tamanho dos nossos pés era diferente do tamanho dos seus.Ainda que quiséssemos parar por um dia não podíamos. A Giulia viria ao nosso encontro dali a dois dias e já nos tínhamos atrasado por causa dos nevões. Ele também não queria parar. Teimoso como uma mula lá se foi arrastando, com a perna mais maltratada esticada como um cajado. E mesmo quando lhe perguntámos se queria que lhe aliviássemos o peso das costas levando-lhe a guitarra e a tenda, negou a nossa proposta. E era o último da fila de peregrinos que percorriam a Via Aquitânia. A Lola de vez em quando vigiava-o. E Juan Lulu caminhou sempre junto dele. O Kiko precisava de umas botas novas e o ânimo de todos entristecia perante a impossibilidade de lhe dar uma coisa tão simples como um par de botas. Acordou pedindo-nos botas, ao pequeno-almoço falava-se de botas e, desesperando na sua dor, erguia uns olhos tristes ao céu, como se estivesse pedindo que acontecesse o milagre das botas.


Por causa disso o Kiko atrasou-se na estrada. Caminhava eu na frente. E vindo já envolvida num transe a que já me tinha habituado quando caminhava, vi ao longe uma coisa amarela que me despertou a curiosidade. Fixei os olhos no objecto estranho, depositado na berma da estrada cruel e caminhei até ele despreocupada, mas curiosa. Quando estava mais próxima reparei que era um saco de plástico. Havia qualquer coisa lá dentro, mas não o abri. Esperei que a Perla me alcançasse. Juntas abrimos o saco. Havia lá dentro uma caixa de cartão. E dentro da caixa - imagine-se - um par de botas!!! Rejubilámos perante aquela dádiva! E impacientemente esbracejávamos no ar como que avisando o Kiko e o Juan que caminhassem mais ligeiros porque havíamos encontrado no Caminho uma botas para o Kiko e urgia saber se lhe serviam. Como uma luva!!! Kiko recusava-se a acreditar no milagre e dizia que as botas eram nossas, que uma de nós as trazia na mochila e acusava-nos da fabricação do milagre. Só deu conta da sua loucura quando conseguimos convencê-lo da estupidez que seria permitir que caminhasse atormentado durante tanto tempo. Os olhos dele encheram-se de água limpa e voltaram a fixar-se no céu azul. Beijou a palma da mão, como tantas vezes fazia, e lançou um beijo de agradecimento. O silêncio que se seguiu permitiu-nos constatar que ele havia mesmo pedido um milagre. E que "alguém" havia atendido a sua necessidade.


Fosse o que fosse, mais tarde soubemos daquela peregrina austríaca que de vez em quando se cruzava connosco e cujos passos eram como os de uma lebre porque rapidamente nos ultrapassava, mesmo quando surgia atrás de nós, a uns poucos quilómetros. Soubemos que, numa povoação antes da Via Aquitânia, a mulher tinha comprado umas botas novas por causa de uma dores que sentia com as que trazia calçadas. Soubemos do peso da mochila que a torturava durante a travessia da estrada romana. E da consequente ideia que teve em aliviar algum do peso que trazia, deixando por ali mesmo um par de botas - não fosse fazer falta a algum peregrino desprevenido. Juntou-se o útil ao agradável.


Não foi um anjo ao serviço de Deus que foi ali depositar aquelas botas. Mas houve uma magia silenciosa na preparação daquele milagre humano. Algo muito raro e especial se movimentou para originar aquele fenómeno. Acontecia muitas vezes durante o Caminho, mas nunca de uma forma tão indiscreta. Não foi um anjo, nem o próprio Santiago Apóstolo. Mas não deixa de ser um milagre!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Jean Leloup


Deixem-me que vos apresente outro peregrino: Jean Leloup, também do Quebec, infelizmente falecido há poucos anos. A música de Leloup fez parte de todo o Caminho, de tal forma que uma das primeiras coisas que fiz quando regressei foi encomendar La vallée des réputations, o álbum que contém a maioria dos temas que o Kiko repetia todas as noites e todos os dias para nosso regalo. Acaba de chegar!

O Caminho certo por linhas tortas


Era o dia de uma despedida definitiva. Caminhámos silenciosos pelas ruas de Ponferrada até à estação de comboios, cruzávamos as vielas de um domingo de ramos desprevenido e as poucas pessoas que passavam nas ruas santificavam os nossos passos com olhares frios inexpressivos. Ao fazer a travessia de uma rua comercial que a mim trouxe a recordação de Santa Catarina ou Cedofeita, ainda de longe, reconheci o toldo vermelho de uma famosa marca europeia. Estando próxima, espreitei a montra zelosamente encerrada numa grade vermelha, dei conta das semelhanças entre aquela pequena loja de rua e as que havia na minha cidade e comentei com o peregrino que estava mais perto: "É numa loja assim que eu vou trabalhar quando chegar a Portugal". Pierre olhou-me de frente e, talvez por se tratar do último instante em que nos víamos, perdeu definitivamente o melindre da pergunta que trazia atravessada na garganta e traiu a sua discrição costumeira: "Queres mesmo trabalhar naquela loja? A vida toda?". Inicialmente acusei-o, no meu silêncio, de uma certa arrogância. Senti naquela pergunta o snobismo de quem tem a ideia estruturada de que só trabalha numa loja uma pessoa sem qualificações maiores. Sorri-lhe e disse-lhe que não seria a vida toda; isso era muito tempo. Dizia-lhe, desculpando-me por ter desistido tão facilmente das minhas ambições genuínas, que era uma boa oportunidade de trabalho, que havia, certamente, forma de crescer e construir uma carreira sólida e segura. Pierre guardou o resto dos pensamentos num silêncio sagrado e continuou a sua marcha lenta em direcção à estação e de vez em quando lançava-me um sorriso esbatido de desilusão. A verdade é que a pergunta perturbou-me. A decisão estava tomada há alguns dias. E desde o momento inicial eu senti o despertar daquela inquietação. Mas a confrontação do Pierre abriu-me, de um só golpe, a ferida; deixou-a exposta para que a sua dor jamais voltasse a sossegar-me.


Era o Caminho de Villar de Manzarife desde Léon. Eu vinha ladeando Juan Lulu. Atrás de nós Pierre e Kiko conversavam a uns quinhentos metros. Trazia, como quase sempre, a música nos ouvidos. E de repente pareceu-me ouvir um sussurro vindo das moitas. Tirei os "phones" para escutar atentamente. Não havia nada. Voltei a pôr a música, mas o sussurro voltou, mesclou-se com a música e tornou-se insuportável. De maneira que resolvi desligar a música de vez. Abri a bolsa que trazia à cinta para guardar o Ipod e dei-me conta de uma luzinha que piscava. Era o telemóvel, uma chamada de Portugal de um número desconhecido. Resolvi atender. Momentos depois, os meus companheiros viram-me dar pulos de alegria. Durante alguns minutos dancei descoordenadamente no ar, por causa da euforia. Tinham-me oferecido trabalho na mesma empresa onde estive antes de partir para o Caminho. A coisa era mais estável desta vez. Fiz os cálculos de quanto iria ganhar e imaginei uma casa e uma vida novas. Nesse sonho, abri a porta da minha casa nova aos meus amigos peregrinos e todos participávamos numa festa descontraída de boas-vindas que eu lhes tinha preparado. Mostrei-lhes a minha vida feliz, despreocupada e relaxada. Tão pouco me importava que não tivesse seguido a minha inclinação profissional do início. O que realmente era significativo era aquele reunião ilusória, a eternidade daquele momento forjado pela imaginação que se entranhava nos meus sonhos para os cristalizar. E a forma como tudo tinha acontecido, a história do sussurro, o facto de eu nunca atender o telemóvel enquanto caminhava... tudo isso me fez pensar que aquela oferta de trabalho era um "regalo" do Caminho, um dos seus imperiosos desígnios ao qual não podia desobedecer.



Eu imaginei que o Caminho era uma linha recta; sublime, perfeita, de contornos definidos, sem atalhos ou desvios; um traço cavado a fundo na terra a régua e esquadro. E intuí que essa terra era sempre a mesma, igual a si própria do início ao fim do percurso, sempre fresca e húmida; e que quando eu a apertasse nas minhas mãos, dela se libertaria aquela fragrância que só existe nas entranhas da terra. E pensei no cheiro da humidade a espalhar-se pelo ar, a contagiar cada ramo, cada pedra, a fazer brotar cada flor que dormisse a timidez da Primavera ainda virgem, a viajar até aos pulmões de toda a gente e a desbloquear as suas deficiências de apetite, a contribuir preciosamente para calibração da ordem perfeita das coisas...
Essa linha firme, cuja inspiração eu fui buscar aos mapas, atravessaria os montes, percorreria os vales, ascenderia nas baixadas perigosas, mas nunca o seu sentido de direcção viria a ser interrompido por uma curva desagradável que desviasse ora aqui à esquerda, ora ali à direita. E essa especulação orientativa simplificou-me o processo dos medos, atribuiu-me ilusões necessárias, deu-me a crença de um Caminho longo e o sabor do eterno.
Do peso que inevitavelmente tinha de transportar comigo, descartei a preocupação das direcções e dos sentidos físicos, de maneira que ficasse apenas a mochila e as culpas a destilar. Era seguir em frente e... já está! O Oeste seria sempre o espelho dos meus olhos, o Norte a mão direita que corrige, o Sul a mão esquerda dos caminhos transviados , o Este o fardo das culpas e dos enganos. No final dessa linha a Catedral. E antecipei o júbilo que sentiria quando a avistasse. Nesse sonho, o Gozo era um monte árido nas alturas, solitário como um eremita e impaciente como uma criança. Calculei a mudança de mim própria depois do Caminho. Tornar-me-ía na pessoa mais afinada do Universo de pessoas que conheço: calma, justa, equilibrada, benevolente e determinada.
Depois foi a linha impecavelmente imperfeita, numerosos e extraordinários atalhos, o desbravar de uma curva sem sentido aparente que abre a porta a um admirável mundo novo para explorar. O Gozo era uma cidade turística, cheia de gente a ziguezaguear de um lado para o outro. E não houve nenhuma novidade na emoção de chegar a Santiago. Ao peso do regresso a casa, juntava-se a inquietação provocada por aquela decisão profissional. Aparentemente, descartava-se o projecto inicial. A sua concretização tinha sido absolutamente substituída pelo prazer da segurança e do bem-estar financeiro. O dia-a-dia no Porto prolongou-me durante algum tempo a sensação do Caminho. O regresso ao mundo inóspito do trabalho numa empresa em crescimento e onde a competição acesa põe a nu as qualidades mais aborrecidas do ser humano trouxe até mim uma certa ira que aos poucos se foi transformando numa genica necessária. O desassossego continuou, cresceu e ganhou voz, até que eu percebesse que não havia nada no mundo que pudesse compensar o vazio que fica com o abandono de um projecto muito desejado, sem que antes houvesse sequer uma tentativa que fosse para o praticar.



Pensei muito e muitas vezes naquela pergunta do Pierre. E mesmo ele, já de volta a casa, escreveu-me várias vezes a sondar em torno daquela questão. Decidi, enfim, pôr termo à inquietação. Não podia, depois de ter percorrido a Península, devolver-me a uma vida de incertezas e contradições. E então, sem que ele voltasse a perguntar-me o que fosse, decidi responder-lhe - que mais o fazia para mim própria do que para ele. Hoje estou novamente a cem por cento envolvida na minha ambição primeira. E a sensação não tem peso nem medida tangíveis.



O Caminho não era a linha perfeita que eu imaginava inocentemente, mas mostrou-me as coisas maravilhosas que se escondem na frágil hesitação de um atalho.