
Nunca pensei voltar a caminhar com os olhos postos no chão, com o coração mingando num peito que se estreita contrariando vontades maiores. Especialmente depois de Finisterra...
Hoje é um tempo diferente. E se durante os Caminhos de Santiago aprendi a beleza e a simplicidade das coisas, agora cumpre aprender a humildades dos ensinamentos e serenidade dos espíritos atentos, mas discretos.
Parti rumo ao cabo do mundo no dia 20 de Agosto, levando comigo o propósito de catalisar as saudades dos outros caminhos mais longínquos, aqueles que ficam para lá de Navarra. Só hoje me dou conta, então, de uma nova, porém mais tranquila, saudade: a saudade do Caminho de Finisterra. A esse não tive, entretanto, a feliz oportunidade de fazer homenagem: talvez porque se estivesse a cozinhar ainda o momento justo da saudade. Esta que sinto agora, mais subtil, mais desperta, maior, talvez! Perante ela, urge agora reaprender o equilíbrio dos passos, reorganizar as emoções, reformular convicções, reajustar a determinação nas coisas desejadas.
Observei-a durante cinco dias, a minha mãe. E, tendo eu, naquela altura dos caminhos profanos que conduzem ao ponto mais ocidental da Europa, adquirido uma certa altivez que fazia de mim uma espécie de guia daquelas terras sem mapa, não me apercebi das coisas que o passo cada vez mais certo e afinado da minha mãe me queria ensinar. Juntas, tomámos as primeiras chuvas de Agosto, ensaiando coreografias simples em volta da Compostela. A cada instante, notava-lhe a admiração que depositava em mim, com os olhos brilhantes de incansáveis sorrisos. Nunca lhe reconheci a verdadeira grandeza do gesto, aparentemente banal. E hoje, à distância do tempo e dos quilómetros que percorremos lado a lado, percebo que aquele sorriso era mais uma das coisas grandes da vida, ainda que disfarçada de uma discreta simplicidade, que o Caminho quis que eu aprendesse a valorizar acima de tudo. E baixando a crista perante a minha própria arrogância, sei agora que tenho eu mais razões para me orgulhar dela do que ela de mim.
A encosta do primeiro dia não prometia facilidades. Caminhávamos sem urgência de chegar ao albergue que os rumores dos peregrinos que fazem o caminho ao revés asseguram estar lotado. Dois ou três minutos com um daqueles desgraçados que pensam que sabem tudo acerca de tudo e de todos poderiam ter sido fatais, quando uma triste entidade humana se lembrou de lhe dizer que nunca chegaria a Finisterra por nunca ter caminhado antes, nem sequer para se preparar. Alguma da arrogância que me resta, leva-me a dizer que o Caminho é em si uma preparação. E que não são precisos ensaios, só mesmo a determinação de levar a bom porto o nosso propósito.
Assim foi, atingimos o quilómetro zero das rotas jacobeias no dia 25 de Agosto, embora se diga que Finisterra nada tem que ver com os caminhos sagrados de Compostela, que por ali seguem os míticos que adoram o Sol e não a Deus. Cumprimos juntas os rituais costumeiros: o banho na praia do Langosteiro, o despojo das coisas envelhecidas pelo pó das estradas caminhadas, o pôr-do-sol mais iluminado de sempre.
Entre o momento do passo inaugural e o momento de agora muitas recordações, cuja densidade começa, então, a manifestar-se. Lembro-me do deserto imenso de 15 quilómetros antes de chegar a uma terra que se chama Cee. Lembro-me das vaquinhas que, tolhidas de medo de mim e eu delas, impediram a passagem no dia em que nos dirigíamos a Oliveiroa. Lembro-me da primeira noite sossegada, no dia em que decidimos encurtar a etapa e dormimos numa escola antiga em Vilaserío, onde ninguém queria ficar por correr o boato que o albergue não tinha "condições". Mal sabiam eles da água quentinha que corria naqueles canos enferrujados. Tão comovente, a recordação das pausas que fazíamos no nosso caminho para petiscarmos aqui e ali um bocadillho ou outra coisa qualquer que nos enganasse o estômago. Em Oliveroa, acordou-me dizendo: "Levanta-te, já são sete da manhã, temos de ir", ensinando-me que o Caminho já estava mais nela do que em mim. Antes de chegar a Cee prega-me a partida de se lesionar no meio do nada mas logo, logo obedeceu à necessidade de continuar perante a evidência de que ficar ali em queixumes nada resolvia. Não criou uma única bolha, nem ameaçou sequer uma tendinite. Só aquele incidente no deserto que prontamente ultrapassou.
Nos albergues, durante os convívios, mostra-se uma verdadeira peregrina, denuncia-se uma hospitaleira convicta. Cuida de mostrar o seu imenso sorriso a todos e não há um "ai" que se solte da sua boca quando o corpo arrefece e com isso vêm as primeiras dores. Só palavras bonitas.
Lembro-me de quando cheguei em Março. Ela banhada em lágrima apertando-me com força no regaço materno, certificando-se de que eu estava inteira, vencendo aquela ilusão de vazio que a minha ausência temporária lhe tinha posto em torno dos braços e do peito. Dizia-me, então, sufocando: "Eu nunca seria capaz de fazer o que tu fizeste". E chorava, chorava e apertava-me contra si para saber que eu era de verdade, que aquilo tinha sido uma espécie de sonho meio mau, meio bom. Lembro-me de não ter tido como responder-lhe. Sentia uma nova timidez, como se a vida me tivesse separado dos meus durante anos e anos. Não sabia o que dizer-lhe quando ela começava: "Eu nunca seria capaz...". Mas agora já sei. E se pudesse recuperar o oportuno daquele instante, responder-lhe-ia deste modo: "Claro que és capaz, afinal eu sou tua filha, tenho a mesma raça"