Eu tive a felicidade de possuir todos os meios necessários para levar a bom porto a minha peregrinação a Santiago de Compostela. Insisto em chamar-lhe "peregrinação" pelo aspecto espiritual que, ainda que à minha maneira tão própria, imprimi à coisa.
Depois, meses depois, ouve-se falar nas televisões portuguesas e noutros meios de comunicação de um jovem português que decide partir de Braga em busca de Jerusalém. Seja lá o que for que Jerusalém represente para Amaro Franco, o certo é que a sua "caminhada" de cerca de 8000 km tem, tanto quanto a mim me parece, na sua finalidade a realização de um encontro com um Deus genuíno.
Provavelmente terá sentido o que eu senti: uma espécie de chamamento a cuja obediência é impossível escapar. Infelizmente, o Amaro não detém os bens financeiros que lhe permitam concretizar a peregrinação com o sentimento seguro de que nada faltará durante a longa viagem. A notícia, pelos meios de comunicação divulgada, tinha com certeza o intuito de lançar uma campanha com a finalidade de recolher apoios financeiros capazes de sustentar o duro périplo.
Eu não sou muito de ajudar neste sentido. O dinheiro é doado e nunca sabemos a que mãos há-de ir parar. Ao mesmo tempo, sei que no lugar do Amaro, sem os meios necessários à minha subsistência, não teria sequer dado o primeiro passo. Mas há qualquer coisa dentro de mim que, neste caso, quer ajudar o homem: uma voz interior que, em surdina, me inquieta e me angustia se nada fizer. Eu sei que há causas bem mais nobres do que ajudar um peregrino com desassossegos espirituais: gente que passa fome por escolha alheia. Se o Amaro passar fome, frio, sede, se ficar doente até, será em consequência de uma opção só sua. Ainda assim não consigo cruzar os braços.
Acontece que foi recentemente lançada uma iniciativa bastante interessante para apoiar o financiamento da peregrinação do Amaro: "Um postal do Caminho". As condições de participação estão descritas no blogue onde o peregrino tem colocado as suas notícias desse caminho longínquo. A equipa de apoio pede para se fazer a sua divulgação. Em troca de uma determinada quantia, o Amaro enviará aos interessados um ou vários postais, escritos por si, das localidades por onde passará, incluindo Jerusalém.
Para mais informações leia-se o artigo postado no dia 21 de Fevereiro de 2008 no endereço http://amarofranco.wordpress.com/2008/02
Espero sinceramente que este homem encontre o que procura ou que aquilo que procura o encontre a ele.
O meu Caminho para Santiago
sábado, 23 de fevereiro de 2008
sábado, 9 de fevereiro de 2008
09 de Fevereiro de 2007
Há aniversários que teimamos em celebrar, por muito absurdo que pareça o motivo do festejo. Há que ter muita cautela, reservar - tanto quanto possível - essas comemorações ao nosso silêncio intimista, para não provocarmos nos outros um olhar de reprovação, uma reprimenda motivada por tão ridículo motivo.
Em bom rigor não se trata de celebrar, comemorar ou festejar. Nada da pompa e da circunstância costumeiras nos dias dos aniversários. Acontece que continuo presa às memórias dos acontecimentos dos últimos, talvez, 365 dias, talvez mais. E é como se tudo se tivesse passado ontem, à hora fresca a inaugurar o dia anterior.
No dia 09 de Fevereiro de 2007, comprei os bilhetes de comboio para a minha primeira viagem solitária. Faz hoje um ano! Ainda me lembro de como tremia como varas verdes no pequeno percurso desde o meu local de trabalho até à bilheteira da Estação de São Bento, feito às pressas durante a minha hora de almoço. O dia estaria assim como o de hoje ou talvez não: cheio de sol ou ameaçando chuva a qualquer instante. Já não sei, perdoem!
Foi, contudo, no momento da aquisição dos bilhetes que se confirmou a minha determinação. A força consolidou-se aí, banindo qualquer sombra de dúvida ou de hesitação para recônditos lugares do pensamento. À compra silenciosa seguiu-se a notícia aos mais queridos: família e namorado. O Pedro, que aqui não tem sido nomeado por ser tido - já o era há um ano atrás - como um membro dela, da família. Em todo o caso, seja feito o seu destaque merecido, personagem singular à distância de toda esta aventura - que o foi - herói principal da minha constelação amorosa desde há quase quatro anos - que ainda o é e será!
Desenganem-se aqueles que julgarem que sou de relacionamento fácil. Alguns dos relatos que aqui faço - quase todos eles passam por descrever relações interpessoais, espontâneas e naturais, naturalmente engendradas por afinidades facilmente identificadas devido às circunstâncias específicas da aventura - alguns dos relatos que aqui faço, dizia eu, podem levar a que se pense que eu sou pessoa fácil. Mas não é bem assim. Uma das coisas que o Caminho nos proporciona, uma das suas múltiplas magias, é a possibilidade de vermos subtraído o nosso lado lunar. De repente somos como que uma estrela menor em perseguição da estrela maior: uma ovelha de recto comportamento seguindo obedecendo ao seu pastor astral sem levantar questões. Por ali a vida simplifica-se. Na simplicidade reside a verdadeira beleza das coisas, talvez a única verdade delas também! Tornámo-nos simples, por embalo. E tudo parece ser, ou é, uma felicidade imensa que se estende para lá do limite do tempo e do espaço. Sentimo-nos bem com o peso subtraído dos nossos defeitos. E depois, nos relatos, somos como que o herói perfeito da aventura perfeita. Mas não é bem assim.
E ele, o Pedro, conhece o meu lado lunar como ninguém: os meus humores, os meus caprichos, as minhas agitações e ansiedades. Só ele sabe como fazer a sobreposição dos obstáculos quando, regressada à terra, as minhas qualidades mais deficientes me é devolvida. E só ele consegue, no meio dessa escuridão - que cada um de nós tem a sua - encontrar a mais fina e ténue luz de esperança no aperfeiçoamento.
Isto tudo para afirmar que foi tomada de algum egoísmo que empreendi esta viagem, inflamado depois da aquisição desses bilhetes. O lado capricorniano do meu signo solar raramente impera as minhas decisões, mas daquela vez foi assim... Normalmente é a face pisciana do meu desastroso ascendente que dá a voz do comando. Deliciosa contradição esta de ser terra e água! Os astros, há muito que estão perdoados!
Foi implacável, decisivo e inquestionavelmente inspirador esse dia de 09 de Fevereiro de 2007. E eu preciso de o recordar, preciso de superar a barreira psicológica do primeiro aniversário, desse dia e de todos os outros que a ele se seguiram até ao meu regresso.
Em bom rigor não se trata de celebrar, comemorar ou festejar. Nada da pompa e da circunstância costumeiras nos dias dos aniversários. Acontece que continuo presa às memórias dos acontecimentos dos últimos, talvez, 365 dias, talvez mais. E é como se tudo se tivesse passado ontem, à hora fresca a inaugurar o dia anterior.
No dia 09 de Fevereiro de 2007, comprei os bilhetes de comboio para a minha primeira viagem solitária. Faz hoje um ano! Ainda me lembro de como tremia como varas verdes no pequeno percurso desde o meu local de trabalho até à bilheteira da Estação de São Bento, feito às pressas durante a minha hora de almoço. O dia estaria assim como o de hoje ou talvez não: cheio de sol ou ameaçando chuva a qualquer instante. Já não sei, perdoem!
Foi, contudo, no momento da aquisição dos bilhetes que se confirmou a minha determinação. A força consolidou-se aí, banindo qualquer sombra de dúvida ou de hesitação para recônditos lugares do pensamento. À compra silenciosa seguiu-se a notícia aos mais queridos: família e namorado. O Pedro, que aqui não tem sido nomeado por ser tido - já o era há um ano atrás - como um membro dela, da família. Em todo o caso, seja feito o seu destaque merecido, personagem singular à distância de toda esta aventura - que o foi - herói principal da minha constelação amorosa desde há quase quatro anos - que ainda o é e será!
Desenganem-se aqueles que julgarem que sou de relacionamento fácil. Alguns dos relatos que aqui faço - quase todos eles passam por descrever relações interpessoais, espontâneas e naturais, naturalmente engendradas por afinidades facilmente identificadas devido às circunstâncias específicas da aventura - alguns dos relatos que aqui faço, dizia eu, podem levar a que se pense que eu sou pessoa fácil. Mas não é bem assim. Uma das coisas que o Caminho nos proporciona, uma das suas múltiplas magias, é a possibilidade de vermos subtraído o nosso lado lunar. De repente somos como que uma estrela menor em perseguição da estrela maior: uma ovelha de recto comportamento seguindo obedecendo ao seu pastor astral sem levantar questões. Por ali a vida simplifica-se. Na simplicidade reside a verdadeira beleza das coisas, talvez a única verdade delas também! Tornámo-nos simples, por embalo. E tudo parece ser, ou é, uma felicidade imensa que se estende para lá do limite do tempo e do espaço. Sentimo-nos bem com o peso subtraído dos nossos defeitos. E depois, nos relatos, somos como que o herói perfeito da aventura perfeita. Mas não é bem assim.
E ele, o Pedro, conhece o meu lado lunar como ninguém: os meus humores, os meus caprichos, as minhas agitações e ansiedades. Só ele sabe como fazer a sobreposição dos obstáculos quando, regressada à terra, as minhas qualidades mais deficientes me é devolvida. E só ele consegue, no meio dessa escuridão - que cada um de nós tem a sua - encontrar a mais fina e ténue luz de esperança no aperfeiçoamento.
Isto tudo para afirmar que foi tomada de algum egoísmo que empreendi esta viagem, inflamado depois da aquisição desses bilhetes. O lado capricorniano do meu signo solar raramente impera as minhas decisões, mas daquela vez foi assim... Normalmente é a face pisciana do meu desastroso ascendente que dá a voz do comando. Deliciosa contradição esta de ser terra e água! Os astros, há muito que estão perdoados!
Foi implacável, decisivo e inquestionavelmente inspirador esse dia de 09 de Fevereiro de 2007. E eu preciso de o recordar, preciso de superar a barreira psicológica do primeiro aniversário, desse dia e de todos os outros que a ele se seguiram até ao meu regresso.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Pensamento do dia
Às tantas descobri que o homem completo é aquele que se constrói das mais diversas matérias. As mais importantes: o sal das lágrimas e o calor natural dos sorrisos espontâneos. Haja também mestria para saber equilibrar a dosagem dos ingredientes essenciais.
E hoje, claro, hoje é dia de sorrisos!
Sorriso gigante para todos aqueles que me lêem (se ainda houver alguém)
E hoje, claro, hoje é dia de sorrisos!
Sorriso gigante para todos aqueles que me lêem (se ainda houver alguém)
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Avé Coronel!
O Coronel acordava cedo todas as manhãs. E era talvez o primeiro a chegar ao destino. Percorria incansavelmente toda a etapa sem se demorar nas pausas. Aliás, nunca fazia nenhuma. Era começar a caminhar e só parar no albergue. Era coisa de militar, certamente! Ter-se-á, provavelmente, acostumado a exercícios físicos mais exigentes durante a carreira no Exército Espanhol. E por isso, creio que via no Caminho um passeio merecido que não oferecia, do ponto de vista físico, a mínima dificuldade. Dessa forma, percorrer 30 Km sem parar com peso acrescentado nas costas era para o Coronel, como se costuma dizer na gíria, canja-laranja! Reformado da profissão, recusava reformar-se da vida. Todo ele era – pelo menos naquele contexto bastante particular – todo ele era alegria de viver! Uma força da natureza!
Talvez sessenta anos! Eu não lhe dava mais! Pai de duas filhas e de um filho, se não estou em erro, com idades a rondar a minha faixa etária, sabia perfeitamente como “cuidar” de mim quando me encontrou na minha primeira e verdadeiramente única aflição do Caminho em Cizur Menor. Não se cansou de me dizer: “Quando quiseres ir a Madrid…” Para não me preocupar, que quando eu quisesse, quando fosse à capital, teria sempre estadia garantida; que não fosse por esse pequeno grande pormenor que eu me quitasse de ir visitá-lo!
Eu sofria ainda da aflição do dia anterior: havia conduzido os meus passos pelo caminho errado, embora a bússola no topo do bordão que o levara de casa do meu pai, me assegurasse a direcção correcta: oeste. Quando acordei no dia seguinte em Pamplona, sozinha, desquitada do primeiríssimo círculo de amigos, ainda tenro, as pernas tremiam-me e não era por causa do frio ou das dores. A hesitação presidia os meus cálculos do terreno, das distâncias e das possibilidades. Um certo pessimismo, confesso! Enquanto me encontrasse nas imediações da cidade, vendo gente, automóveis, semáforos e agitações das mais divertidas espécies, sentia uma falsa segurança que me motivou a continuar. Mas assim que Pamplona se transformou numa ténue visão de cidade distante onde todos os seus edifícios, gentes e movimentos passaram a caber num olhar semi-cerrado, prostrada eu no alto de uma pequena colina à entrada da pequena aldeia de Cizur Menor, voltaram os fantasmas do dia anterior e decidi ficar-me por ali como já tive oportunidade de relatar.
Blá, blá, blá… o que seguiu é já do conhecimento de todos aqueles que teimam em acompanhar estes meus devaneios santiaguistas. (agora já quase à distância de um ano, meu Deus! Um ano!!!). Bom, lembrar-se-ão, por certo que estive nesse dia durante algum tempo metida no único (assim o creio agora) restaurante da aldeia. E que foi aí que travei conhecimento com três homens com quem caminhei no dia seguinte até à ermida de Santa Maria de Eunate. Foi nesse dia também que conheci o Coronel.
Em boa verdade não o mencionei no artigo em que contei a história da minha chegada a Cizur Menor. Talvez porque a consolidação da minha amizade com o Coronel se tenha dado uns dias depois, mais à frente. Mas foi aí que se lançaram as suas sementes.
Chovia que Deus me livre! E um homem entrou no bar. Alto e corpulento, trazia consigo também uma voz que fazia jus à opulência da sua imagem. Uma voz de tenor no timbre e de comandante no ritmo. Os outros já o conheciam e trataram de o apelidar de “El-Capitan”. Em bom rigor, o homem tinha sido mesmo Coronel. Sentou-se e almoçou connosco. À noite jantámos os mesmos, no mesmo sítio por não haver outro. E foi à noite que, confessado o seu gosto pelo fado português, lhe cantei uma “Estranha forma de vida”, com a minha voz de natural saudade lusitana. Cantei-lhe a ele e aos outros. Mas foi o Coronel, entre todos, o mais afirmativo dos fãs que conquistei no Caminho. O Coronel e a Perla, a partir de Grañon!
Encontrá-lo-ia, depois, em Puente de la Reina, onde iniciámos, sem querer, o compromisso de jantarmos juntos, convidando os peregrinos que tivessem por perto no momento de acertar os pormenores da hora e local da refeição. Foi quando Pierre se juntou a nós. O Giuseppe, também!!! Nunca falei do Giuseppe pois não? Um irremediado hippie italiano que falava quantos idiomas sabia, todos misturados como se fossem um só e que, por isso mesmo, recebeu de mim o epíteto de Salvatore, por me fazer lembrar a personagem com o mesmo nome e com o mesmo talento de “O Nome da Rosa”? Aprofundarei o assunto mais à frente, então!
Voltando ao Coronel! Encontros e desencontros, como é normal nestas andanças, ora nos apartavam, ora nos aproximavam. A nossa derradeira vez foi às portas de Agés, depois de Belorado. Não me lembro agora se ele me disse que continuava para Burgos ou se ficava por ali mesmo, “hospedado” noutro albergue. Em boa hora trocámos os números de telemóvel e assim podemos, ainda hoje, manter contacto.
Apesar de uns dias antes, ter pernoitado em Santo Domingo de la Calzada, o Coronel apanhou-nos em Grañon pela manhã, catando na pequena aldeia um local onde pudesse “desayunar”. À falta de tal local, decidiu acompanhar-nos na caminhada desse dia, indo comigo à frente desbravando os trilhos do desconhecido. Não pôde suportar as constantes e demoradas paragens da Perla, Kiko, Juan e Pierre. E eu, não suportando ignorar a sua vontade em ter alguma companhia nesse dia, alinhei os meus passos com os seus e abandonei momentaneamente os outros peregrinos. O Coronel pedia-me que cantasse. E, sempre a seu pedido, mostrei-lhe creio que todo o meu repertório. Ele cantou também. Confirmou-se a voz de tenor, o ritmo de militar. Depois, em conversa, confessou-me o seu único arrependimento da vida: uma simples, mas fantástica metáfora! Dizia assim: “Só tenho pena de, enquanto fui jovem, não me ter atirado para dentro uma fonte. Queria muito ter feito isso. E se o fizer agora, a um homem do meu tamanho, parece mal. Porque me chamariam louco. Se o tivesse feito quando era mais novo, diriam simplesmente que eu era jovem e que, por isso, não sabia o que fazia.” Repetia isto umas quantas vezes, deixando-se emocionar pela saudade distante de uma qualquer loucura com prazo de validade, entretanto esgotado. De resto, era um homem conciliado consigo mesmo. Felizes daquela felicidade natural que os homens têm por serem simples, por se recusarem a complicarem demasiado as suas existências.
Talvez sessenta anos! Eu não lhe dava mais! Pai de duas filhas e de um filho, se não estou em erro, com idades a rondar a minha faixa etária, sabia perfeitamente como “cuidar” de mim quando me encontrou na minha primeira e verdadeiramente única aflição do Caminho em Cizur Menor. Não se cansou de me dizer: “Quando quiseres ir a Madrid…” Para não me preocupar, que quando eu quisesse, quando fosse à capital, teria sempre estadia garantida; que não fosse por esse pequeno grande pormenor que eu me quitasse de ir visitá-lo!
Eu sofria ainda da aflição do dia anterior: havia conduzido os meus passos pelo caminho errado, embora a bússola no topo do bordão que o levara de casa do meu pai, me assegurasse a direcção correcta: oeste. Quando acordei no dia seguinte em Pamplona, sozinha, desquitada do primeiríssimo círculo de amigos, ainda tenro, as pernas tremiam-me e não era por causa do frio ou das dores. A hesitação presidia os meus cálculos do terreno, das distâncias e das possibilidades. Um certo pessimismo, confesso! Enquanto me encontrasse nas imediações da cidade, vendo gente, automóveis, semáforos e agitações das mais divertidas espécies, sentia uma falsa segurança que me motivou a continuar. Mas assim que Pamplona se transformou numa ténue visão de cidade distante onde todos os seus edifícios, gentes e movimentos passaram a caber num olhar semi-cerrado, prostrada eu no alto de uma pequena colina à entrada da pequena aldeia de Cizur Menor, voltaram os fantasmas do dia anterior e decidi ficar-me por ali como já tive oportunidade de relatar.
Blá, blá, blá… o que seguiu é já do conhecimento de todos aqueles que teimam em acompanhar estes meus devaneios santiaguistas. (agora já quase à distância de um ano, meu Deus! Um ano!!!). Bom, lembrar-se-ão, por certo que estive nesse dia durante algum tempo metida no único (assim o creio agora) restaurante da aldeia. E que foi aí que travei conhecimento com três homens com quem caminhei no dia seguinte até à ermida de Santa Maria de Eunate. Foi nesse dia também que conheci o Coronel.
Em boa verdade não o mencionei no artigo em que contei a história da minha chegada a Cizur Menor. Talvez porque a consolidação da minha amizade com o Coronel se tenha dado uns dias depois, mais à frente. Mas foi aí que se lançaram as suas sementes.
Chovia que Deus me livre! E um homem entrou no bar. Alto e corpulento, trazia consigo também uma voz que fazia jus à opulência da sua imagem. Uma voz de tenor no timbre e de comandante no ritmo. Os outros já o conheciam e trataram de o apelidar de “El-Capitan”. Em bom rigor, o homem tinha sido mesmo Coronel. Sentou-se e almoçou connosco. À noite jantámos os mesmos, no mesmo sítio por não haver outro. E foi à noite que, confessado o seu gosto pelo fado português, lhe cantei uma “Estranha forma de vida”, com a minha voz de natural saudade lusitana. Cantei-lhe a ele e aos outros. Mas foi o Coronel, entre todos, o mais afirmativo dos fãs que conquistei no Caminho. O Coronel e a Perla, a partir de Grañon!
Encontrá-lo-ia, depois, em Puente de la Reina, onde iniciámos, sem querer, o compromisso de jantarmos juntos, convidando os peregrinos que tivessem por perto no momento de acertar os pormenores da hora e local da refeição. Foi quando Pierre se juntou a nós. O Giuseppe, também!!! Nunca falei do Giuseppe pois não? Um irremediado hippie italiano que falava quantos idiomas sabia, todos misturados como se fossem um só e que, por isso mesmo, recebeu de mim o epíteto de Salvatore, por me fazer lembrar a personagem com o mesmo nome e com o mesmo talento de “O Nome da Rosa”? Aprofundarei o assunto mais à frente, então!
Voltando ao Coronel! Encontros e desencontros, como é normal nestas andanças, ora nos apartavam, ora nos aproximavam. A nossa derradeira vez foi às portas de Agés, depois de Belorado. Não me lembro agora se ele me disse que continuava para Burgos ou se ficava por ali mesmo, “hospedado” noutro albergue. Em boa hora trocámos os números de telemóvel e assim podemos, ainda hoje, manter contacto.
Apesar de uns dias antes, ter pernoitado em Santo Domingo de la Calzada, o Coronel apanhou-nos em Grañon pela manhã, catando na pequena aldeia um local onde pudesse “desayunar”. À falta de tal local, decidiu acompanhar-nos na caminhada desse dia, indo comigo à frente desbravando os trilhos do desconhecido. Não pôde suportar as constantes e demoradas paragens da Perla, Kiko, Juan e Pierre. E eu, não suportando ignorar a sua vontade em ter alguma companhia nesse dia, alinhei os meus passos com os seus e abandonei momentaneamente os outros peregrinos. O Coronel pedia-me que cantasse. E, sempre a seu pedido, mostrei-lhe creio que todo o meu repertório. Ele cantou também. Confirmou-se a voz de tenor, o ritmo de militar. Depois, em conversa, confessou-me o seu único arrependimento da vida: uma simples, mas fantástica metáfora! Dizia assim: “Só tenho pena de, enquanto fui jovem, não me ter atirado para dentro uma fonte. Queria muito ter feito isso. E se o fizer agora, a um homem do meu tamanho, parece mal. Porque me chamariam louco. Se o tivesse feito quando era mais novo, diriam simplesmente que eu era jovem e que, por isso, não sabia o que fazia.” Repetia isto umas quantas vezes, deixando-se emocionar pela saudade distante de uma qualquer loucura com prazo de validade, entretanto esgotado. De resto, era um homem conciliado consigo mesmo. Felizes daquela felicidade natural que os homens têm por serem simples, por se recusarem a complicarem demasiado as suas existências.
Subscrever:
Comentários (Atom)